19 de junho de 2013 às 08h25min - Por Mário Flávio

Está acontecendo. Professores mobilizados há cinco meses em Caruaru-PE, 100 mil manifestantes no RJ, 150 em SP, 65 mil em Brasília. Não pode ser aventura de uma rebeldia sem causa. Três minutos no facebook e vemos pelo menos dez protestos contra a opulência da copa, sempre num comparativo da situação precária de algum serviço público com a festa rica do futebol. E quanta estranheza, numa cidade tradicionalista, em que a política voltou a 1920, em uma cidade em que o quietismo, a acriticidade parecia dar o tom, um grupo de atrevidos escravos de Jó fazerem barulho. Muita ousadia a vossa.

Não é exatamente contra R$ 0,20 a mais nas passagens de ônibus em SP, não é contra a incorporação inconstitucional de gratificações ao piso nacional do professor, não é contra a Copa – vai ser até bom distrair com os dribles do milionário Neymar. Entretanto, é por um Estado SOCIAL de Direito que o silêncio está sendo rompido pelas ruas. É contra os menos de R$ 680,00, contra a necessidade de precisar do bolsa-alguma-coisa para sobreviver, contra a saúde que é preciso poder pagar para ter, contra o fato de a escola ter perdido sua identidade de instituição de educação e cultura para ter se tornado um apêndice da ação social.

Para saber os motivos, é só tentar responder às perguntas: que empresas lucraram com a construção dos estádios? Cinco? Seis? Nacionais?; e com o fim da copa, o investimento público vai se reverter em benefício para a população local?; que gasto extraordinário surgiu na educação para justificar o arrocho que os professores vêm levando?; se Haddad estava convicto sábado de que era impossível não aumentar o valor da passagem na quantia calculada, por que hoje mudou de opinião? Se em lugar de 600 na Câmara de Caruaru fossem 6 mil, será que o Projeto de Lei seria pelo menos votado? O “não podemos” gastar (como se fosse gasto, não investimento) mais com saúde e educação e transporte e salário e creche e… é “não podemos” sob a ótica de quem? Ruy Mauro Marini com o pensamento da política econômica da dependência para a América Latina respondeu e profetizou.

Por fim, outro fato interessante das mobilizações é a ausência de protagonismo. Nem os caciques partidários ou as lideranças dos movimentos sociais esperavam que a massa pudesse se mover sem eles. Isso porque o projeto coletivo que tinham, a força ideológica que os movia, deu lugar a um projeto particular há muito tempo – pelo menos a maioria – e isso vem sendo notado aos poucos. Particular no sentido de que não é o interesse público que vem primeiro. Não é de se dizer aqui que Dilma não tenha ideologia, mas que ela está agrilhoada na “necessidade da governança”, como ela mesma disse na última troca de ministros. É o amargo do poder.

A massa: “abra bem os olhos e os ouvidos, o grito das ruas é para alertar sobre os perigos existente no rumo que a democracia vem tomando, é para ouvir a voz dizer que não se pode perder a esperança. Na política.”

*Armando Melo é professor


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro