1 de abril de 2014 às 11h10min - Por Mário Flávio

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Por Tâmara Pinheiro – Do livro: Relatos da ditadura em Caruaru – Histórias que os livros não contam

Edson Siqueira tinha grande habilidade para desenhar, e o que fazia apenas por diversão o tornou parte de um movimento contra o regime militar. “Conseguia fazer um desenho, apenas olhando para uma pessoa. Esse meu talento começou a ser utilizado pelos companheiros, que me pediam para desenhar sempre que a gente ia fazer algum panfleto ou para usar em alguma publicação”. Para prevenir que o grupo não fosse denunciado e preso pelos militares, era montado um esquema quando se pedia uma charge para algum jornal, por exemplo.

“Eu ia para Recife e lá encontrava geralmente três pessoas que não me conheciam. Elas diziam onde eu ia ficar, em qual bairro ou apartamento. Eu fazia, entregava o trabalho mas não sabia seu receptor final. Era uma forma de não se auto-destruir e nem acabar o movimento, caso fosse preso”. Um companheiro de Edson, o caruaruense Antônio Ferreira da Costa Neto era o mediador na maioria das ações do grupo. Além das caricaturas e desenhos, Siqueira também participou de ações que envolviam o pichamento. Essas ações eram mais efetivas na época de eleições municipais e com tinta comum, o que tornava o processo mais demorado.

As pichações traziam ideais contra o partido ARENA, que era a base do governo dos militares. Mas também, o voto nulo era incitado. “Tudo era muito perigoso porque a gente tava identificado o tempo todo, nos sujávamos muito durante as pichações, não era algo que a gente pudesse disfarçar”. Edson conta que,certo dia, o companheiro Gilberto de Souza Pepeu, estava ao lado do Cinema Caruaru, onde hoje é o Banco do Brasil. Ia escrever ‘Vote Nulo’, só que ele percebeu uma sombra de alguém em um poste, encostado, e continuou só que modificando o texto para ‘Vote em Araci’, que era a primeira-dama do município, esposa de Drayton Nejaim. Mesmo assim ainda foi detido.

O movimento também produzia panfletos, que eram distribuídos ao público em eventos, ou qualquer lugar que tivesse aglomeração de pessoas. O dia mais produtivo para o grupo era o dia da Feira de Caruaru, que acontecia no centro da cidade, na antiga Rua do Comércio, hoje Rua 15 de novembro.

As prisões – Foi o seu talento em desenhar, fazer caricaturas e charges que fez com que fosse convocado a depor, pela primeira vez. O ano era 1968, e Edson não sabia do motivo da convocação até chegar à delegacia. Na 22ª Circunscrição de Serviço Militar (CSM), lhe foi mostrado uma caricatura que tinha feito. No desenho, Chacrinha, personagem de Abelardo Barbosa, que fazia muito sucesso no programa de calouros ‘Buzina do Chacrinha’ da Rede Globo, estava entre os generais Castello Branco e Costa e Silva. Chacrinha perguntava para o público qual deveria ser escolhido, fazendo uma ligação entre a escolha para quem governaria o país como um concurso de calouros do programa.
Esta crítica bem-humorada foi parar nas mãos dos militares que questionaram qual o destinatário do desenho feito por Edson.

“Como não sabia o porquê nem para quem tinha sido a caricatura, os militares pediram em troca uma charge que exaltasse as Forças Armadas. Escolhi a figura do escritor Olavo Bilac3 convocando os brasileiros para se alistar no exército”. No dia 31 de outubro de 1970, o grupo de Edson fez uma reunião junto a alguns trabalhadores que guardavam os bancos da feira livre, na Rua São Sebastião. Em frente à Igreja da Conceição, os trabalhadores eram informados sobre a situação política do país, desde a chegada do Exército ao poder.

“Nossa intenção era mostrar a eles como as coisas não estavam funcionando bem. Começamos a despertar a necessidade de reagir, de ter o livre arbitro de escolher em quem votar e porque votar e não ser obrigado a votar porque o patrão pediu. Fizemos este movimento com alguma distribuição de material”. Mesmo assim, sem nenhuma agressividade.

Depois disso, Edson juntou-se a alguns amigos e foi tranquilamente a um bar na cidade. No dia seguinte, domingo, 1º de novembro, Edson foi acordado pelo pai batendo na porta de seu quarto. Olhou o relógio e viu que eram oito horas da manhã, muito cedo para levantar em um dia de descanso.

– Hoje é domingo e ainda é cedo! – gritou Edson
Do outro lado da porta, seu pai alertou:
– Levante e desça que você está preso.
Mesmo pensando que era uma brincadeira do pai, Edson levantou assustado e foi rapidamente ao térreo da sua casa. Lá percebeu que o seu próprio pai tinha realmente lhe dado voz de prisão.
– Encontrei minha mãe com um copo de suco de laranja na mão e chorando muito. Meu pai falou que eu estava preso por ordem do exército e que tinha que me levar para a delegacia. O susto que o despertou naquela manhã dominical era o só o começo.
– Eu fiquei muito assustado, pois não tinha havido nenhum movimento que justificasse a prisão. Se eu tivesse participado de um grande pichamento em Recife, tivesse ‘levado uma carreira’ (sic), qualquer coisa assim, tudo bem, teria existido uma ação mais consequente. Mas no dia 31 não tinha acontecido nada de especial, aquela ação com os guardadores de banco era rotineira.

Edson foi fichado, fotografado e levado para um lugar que reconhecia. Chamada de ‘Cela dos Doidos’, ela era pequena e muito escura e ficava no térreo da delegacia. Lá, até o final daquele dia ficariam detidos cerca de 16 pessoas, entre elas amigos dele, como Antônio Ferreira e os irmãos Zuza, Arlindo e Elias. Assim que estes últimos chegaram, Edson brincou, chamando-os de Irmão Metralha, em referência aos bandidos, personagem da história de quadrinhos do Tio Patinhas, criado pelo cartunista Carl Barks, para animação da Disney.
À noite, os soldados que estavam de vigiam faziam brincadeiras e interrompiam o sono dos presos aos gritos.

“Eles batiam nas grades da cela com barra de ferro e ficavam gritando nomes desconhecidos. Depois levava alguém. Quando isso acontecia, outro soldado dizia ‘Aquele não vai passar da Serra das Russas4 e isso nos amedrontava”. No quarto dia preso, foi levado novamente para prestar depoimento. O interrogatório começou de oito horas da manhã e terminou por volta das 13 horas. Foi interrogado pelo tenente Nilo e o Cabo Costa, ambos amigos de seu pai. O depoimento começou com uma pergunta que Edson não imaginava:
– Por que você chamou Zuza, Arlindo e Elias de Irmãos Metralha?
– Vocês não lembram do desenho do Tio Patinhas?
Os interrogadores não acreditaram e bateram no interrogado. Depois, continuaram:
– Por que você canta sempre músicas do Chico Buarque e do Geraldo Vandré? Edson gostava muito de cantar e tocar a música ‘Pra não dizer que não falei das flores5 que foi considerado pelo governo militar um hino contra a Ditadura.

Terminado o interrogatório, pediram para Edson assinar o depoimento, que no total tinha oito páginas datilografadas. Mas, ele quis ler primeiro e percebeu que tudo que estava escrito ali tinha sido montado, fazendo com que se recusasse a assinar. “Eu não tinha dito nem tinham me perguntado nada do que estava escrito ali. Recusei-me e por isso me deram alguns choques, com uns braceletes atados a meus pulsos e me mandaram para uma cela isolada”.

Nesta nova cela, ele não tinha contato com ninguém e estava sendo vigiado 24 horas por dia. Seu pai, que tinha lhe chamado para ser preso, começou a perceber a maneira dura com que o filho estava sendo tratado na cadeia, lugar que já tinha trabalhado. “Meu pai ficou impressionado, pois até com a minha comida eles tinham controle rígido. Reviravam tudo, botavam a mão mesmo”.

Sem aguentar ver o filho sendo tratado como um bandido perigoso foi apelar para o delegado Ferraz. “Se for comprovado que meu filho é um comunista perigoso, faço questão de participar até do seu fuzilamento. Mas, se não tem grandes motivos para estar preso, soltem-no ou vou tira-lo à força”. Vendo o apelo do pai e companheiro de profissão, o delegado revelou que o único problema era a falta da assinatura do interrogatório. O pai então assinou o depoimento no lugar do filho, que foi liberado.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro