6 de junho de 2018 às 09h19min - Por Mário Flávio

Desde quando me entendo como gente, que escuto a famosa frase que valoriza a nossa cidade em território brasileiro, “CARUARU É A CAPITAL DO FORRÓ”. É notória que essa afirmação tem um cunho promocional de uma manifestação cultural que ganhou forças ainda no século passado, a partir de como a cidade celebrava esse período e de como o potencializou.

A festa junina ganhou ainda mais importância quando grandes cantores a homenagearam fazendo referência a esse grande festejo, como na letra “A capital do forró” na voz do saudoso Lindú, música de Jorge de Altinho.

Essa música sem sombra de dúvidas é o grande hino do nosso São João, lembro-me enquanto criança que todas as rádios AM tinham grandes programações que fomentavam essa cultura popular o ano todo, as escolas em sua maioria organizam as quadrilhas matutas, dezenas de bairros espalhados pela cidade contribuíam para a descentralização dos festejos, em suma, o povo era o dono da festa.

Principalmente a partir dos anos 2000 aprofundou-se o processo de descaracterização do nosso São João, cada vez mais centralizado e menos do povo. Apequenamos a nossa festa quando falamos dela apenas para discutirmos se a grande é boa ou não, e de forma alguma em quase nada isso contribuem para o fortalecimento cultural.

Entre várias definições o conceito de cultura que mais me agrada é aquele quando diz que cultura é aquilo que me identifica. Cultura é me enxergar nas representações do cotidiano. Dessa maneira, fica quase que impossível afirmar que Caruaru mantém uma identidade cultural voltada para o São João da mesma forma que existia há 30 anos, temos Luiz Gonzaga como referência, mas escutamos os safadões e os aviões que pouco tem de forró, admiramos o João do “pife” como quem admira uma “coisa” que só tem importância em um período do ano, mas pagamos um cachê quase que milionário para o DJ que não sabe nem sequer pronunciar corretamente o nome da nossa cidade.

A cultura deve ser fomentada diariamente, se a juventude hoje em dia tem outros gostos musicais, será que a elas não está sendo negada a oportunidade de conhecer e ouvir aquilo que nos fez sermos o que somos ainda hoje?

Se essa juventude não se identifica mais com o forró tradicional e muito menos com as manifestações que estimula esse sentimento, significa dizer que infelizmente se nada for feito estamos em uma rota de colisão com o fim da cultura do São João, e assim como no passado que éramos conhecidos pelo grande carnaval e pela festa do comércio, podemos estar repetindo a história.

Essa é uma reflexão de alerta, de fato não deixa de ser pessimista, mas levemos em consideração que ainda podemos resgatar esse sentimento não como saudosismo, mas como algo que nos identifica e que nos faz bem, existem alguns trabalhos acadêmicos e projetos que podem e devem contribuir com o fortalecimento da cultura junina, é necessário voltar os espaços que as rádios davam e se comercialmente é “difícil”, é necessário criatividade.

Os órgãos públicos e, sobretudo a prefeitura, devem incentivar principalmente nas escolas esse sentimento e construir durante todo o ano esse clima que sentimos no mês junino. Ideias eu sei que não faltam, basta o poder público abrir espaço e abraçar a causa.

A pior maneira de acabar com um povo, é acabando com sua identidade cultural… Fica a reflexão.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro