14 de fevereiro de 2013 às 18h58min - Por Mário Flávio
Daquilo que eu sei

Ex-ministro descreveu sua participação na eleição de Tancredo em livro

Com o falecimento do ex-ministro pernambuco Fernando Lyra na tarde desta quinta (14), uma comoção se formou sobretudo entre aqueles que fizeram parte das gerações acompanharam o processo de redemocratização no Brasil após a Ditadura Militar. Advogado e político, Fernando exerceu seis mandatos de deputado federal por Pernambuco, e considerado um dos “Autênticos do MDB”, como eram conhecidos os militantes do partido que desafiavam o regime militar, apesar de ter transitado entre os mais moderados do partido, pela sua aproximação com Tancredo Neves. Aliás, analistas políticos se referem a Fernando como uma peça fundamental para momentos marcantes de Pernambuco e do Brasil, como o fim da censura, a luta por direitos humanos e políticos, o processo de eleição de Tancredo para presidente em 1985 e, mais recente, as vitórias de Eduardo Campos para governo de Pernambuco.

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Para o analista Arnaldo Dantas, democracia no Brasil rima com Fernando Lyra. “Não se pode falar da história política pela democracia no país sem falar dele. Ele foi político numa época em que ser político era difícil, ainda mais sendo oposição à Ditadura Militar. Toda a estrutura que temos atualmente se deve a homens como ele, que lutaram pela democracia, no que se refere à anistia política, ou ao movimento pela Direitas Já, ou ao processo de eleição de Tancredo Neves. Ele foi o maior político de expressão nacional que Caruaru já teve”, ressaltou.

Arnaldo faz referência direta ao período em que Fernando foi coordenador político na campanha de Tancredo em 1985 para presidente da República, algo descrito no livro “Daquilo que Eu Sei”. Na verdade, devido a esse papel, Fernando foi escolhido para ocupar o Ministério da Justiça no início do governo José Sarney, por indicação de Tancredo. Da década de 1980 até poucos meses antes de seu falecimento, Fernando se manteve ativo na política e na defesa de bandeiras sociais, assim como demonstrou capacidade de articulação e transição entre as correntes políticas de esquerda. Em 1980, ele ingressou no PMDB, depois passou para o PDT em 1987. Ele ainda chegou a disputar a vice-presidência na chapa de Leonel Brizola em 1989, embora não tenha passado para o segundo turno. Em 1993, ele ingressou no PSB.

Sob a ótica da cientista política Ana Maria Barros, a capacidade de articulação do ex-ministro foi fundamental para o desenvolvimento histórico do Brasil. “Não se pode esquecer, por exemplo, que a censura neste país foi derrubada quando ele era Ministro da Justiça. Ele era um grande orador, conseguia emocionar as massas quando ele falava. Boa parte da geração que fez parte do processo de redemocratização do país acompanhou a trajetória de Fernando Lyra. Ele era um grande articulador, respeitado pela oposição, reconhecido como militante do MDB e depois do PMDB, assim como em suas passagens pelo PDT e o PSB.  Lembro dele junto com Ulisses Guimarães, Miguel Arraes, Jarbas Vasconceloes e Leonel Brizola envolvendo a juventude e o povo brasileiro. O papel de Fernando Lyra foi de levar o processo de redemocratização para fora do estado de Pernambuco. Mesmo agora há pouco, ele estava a frente da Fundação Joaquim Nabuco e fazia um excelente trabalho. Estava ligado às bandeiras de direitos humanos, políticos e sociais. Recebi com profundo pesar e creio eu que toda a sociedade caruaruense também”, observou.

Em meio a uma trajetória de mais de 40 anos de vida política, depois de seu último mandato como deputado federal, em 1998, Fernando comentava que seu estilo de atuação não tinha mais espaço no Congresso, o que justificaria ele não ter disputado eleições posteriores. Sua influência no cenário político, contudo, continuou forte. Em 2006, esteve ligado diretamente à vitória de Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, para governador em Pernambuco, em uma chapada da qual fez parte seu irmão, João Lyra, como vice-governador. Também contribuiu para a reeleição de Eduardo em 2010 numa votação histórica, com quase 83% dos votos sobre o senador e ex-governador de Jarbas Vasconcelos. Esses exemplos, na opinião do analista Mário Benning, explicam a referência política do ex-ministro. “Por suas suas ações e opiniões, Fernando Lyra faz parte da história recente do nosso país, seja defendendo o fim da Ditadura ou articulando a eleição de Tancredo Neves para presidente.Por sua coerência política e a fidelidade aos seus ideais, mesmo afastando-se do cenário eleitoral continuou a ser uma referência moral para os pernambucanos e brasileiros”, concluiu.

Arnaldo Dantas

Para Arnaldo Dantas, Fernando foi o político caruaruense de maior expressão nacional


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro