16 de março de 2014 às 07h34min - Por Mário Flávio

Uma das tendências do pensamento humano é realizar generalizações, procurando assim simplificar ao máximo os fatos e a realidade a nossa volta, facilitando a sua compreensão. Porém ao realizamos essa operação mental caímos muitas vezes na elaboração de clichês e estereótipos, que retiram a diversidade da vida social, provocando a sua pasteurização. Dessa forma construímos assim uma modelo dual, ou maniqueísta, dividindo a realidade em herois e vilões, bons e maus.

Essa hipótese é facilmente comprovada quando analisamos as concepções difundidas sobre o que é ser de esquerda. Automaticamente se rotula o indivíduo em defensor de ditaduras como as que existiam no Leste Europeu, Cuba, China ou Venezuela. Julga-se também que ser de esquerda é ser tolerante com a criminalidade e defensor de bandidos, tendo que ter um estilo de vida monástico, consumindo somente os bens necessários a sua sobrevivência. Essa confusão é decorrência direta de um processo que vem hoje afetando a direita. No passado o discurso da esquerda que tinha mais visibilidade era o radical, que terminava monopolizando a atenção a mídia e excluindo, ou eclipsando as demais tendências.

Hoje isso ocorre na mesma escala com a direita, com os neoconservadores raivosos, repetindo o mesmo evento. Assim como ser de direita não significa ser automaticamente um fã de Olavo de Carvalho, Marco Feliciano ou Sheherazade, defender a ditadura militar, a ARENA, ou cultuar Pinochet. Ser de esquerda não significa pregar automaticamente a revolução proletária e a estatização dos meios de produção. Existem aqueles que defendem essas bandeiras? Sim, mas não são todos e nem maioria. Desde o final do século XIX, há um racha nas esquerdas sobre como constituir uma sociedade mais justa, menos desigual.

De um lado existiam os partidos comunistas alinhados a URSS que advogavam o chamado Socialismo Real e do outro o chamado socialismo europeu que renega o stalinismo e origina a social democracia, representada pelo Partido Trabalhista Inglês, Social Democrata Alemã, o Socialista Francês, entre outros. Esse movimento de esquerda, a social democracia, passa a defender que por meio das políticas públicas e da prestação de serviços públicos gratuitos, universais e de qualidade, ocorreria o surgimento de uma sociedade mais justa atenuando o conflito de classes. Pois se os indivíduos tinham as mesmas oportunidades, o sucesso ou fracasso seria consequência da trajetória individual, do seu esforço e do seu talento.

E não condicionado pela sua capacidade de poder pagar, ou não, para ter acesso a educação ou a saúde. Surge assim a noção do Estado de Bem-estar Social, que não procura abolir o capitalismo, mas sim colocá-lo sobre limites bem estabelecidos para que o mesmo não gere crises econômicas, como a atual. Estabelecendo metas possíveis de serem alcançadas hoje, que transformem positivamente a vida das pessoas e não apenas a crença que no futuro isso será atingido, pois como disse Keynes: “ A longo prazo estaremos todos mortos.” No Brasil se soma a essas pautas outras mais específicas, como a questão da violência e dos direitos humanos. Nesse espectro da esquerda, a social democracia, defende que apenas com políticas de repressão não superaremos a crise de segurança existente. Repressão por si só não basta, afinal na maior parte da nossa história insistimos em usar apenas a violência para combater a violência.

Bogotá deu um exemplo bem simples de como superar essa realidade, era uma das cidades mais violentas do mundo, mas conseguiu reduzir de forma drástica os índices. Implantando uma política de tolerância zero, onde o menor crime era punido, mas também institui programas de prevenção, principalmente nas áreas mais carentes, para que o crime não fosse apenas a única oportunidade disponível nas periferias e de reabilitação para recuperar os que cometeram crimes.

Outro ponto polêmico é a defesa dos direitos humanos, os membros da esquerda não querem proteger o criminoso, mas sim a sociedade. Afinal a sociedade deve ser melhor que os indivíduos e justiça é diferente de vingança. É bom lembrar um fato histórico: Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, quando ficaram conhecidos os crimes de guerra cometidos pelos nazistas contra os judeus, eslavos, ciganos, homossexuais e oposicionistas ao regime, surgiram várias dúvidas sobre como lidar e punir essas transgressões e os culpados por aquelas atrocidades. Embora o clamor da opinião pública clamasse pela execução sumária, os aliados decidiram que os membros do 3º Reich seriam submetidos a um processo legal, os Julgamentos de Nuremberg. Dando aos acusados amplo direito de defesa, algo que foi sistematicamente negado as suas vítimas.

Com esse ato os aliados queriam delimitar claramente que os valores que imbuíam as democracias ocidentais, o estado democrático de direito. Era a melhor resposta ao autoritarismo, totalitarismo e a violência gratuita. Demonstrando que por mais absurdo que fosse o criminoso e seus crimes, ele possuía direitos que lhe eram inalienáveis somente por existir. Muitos foram julgados, condenados a pena de morte ou a prisão perpétua e outros tantos foram inocentados. Porém no clima político atual, no burburinho teórico e na confusão de conceitos confunde-se políticas públicas ou sociais e a defesa dos direitos humanos, como sendo a implantação do socialismo e o fim do capitalismo. Numa histeria muito semelhante ao Tea Party nos EUA.

Nesse contexto é bom lembrar a primeira encíclica do Papa Francisco, a Evangelii Gaudium: “Alguns defendem (…) que todo o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar.”

*Mário Benning é professor e analista político


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro