22 de dezembro de 2012 às 09h54min - Por Mário Flávio

Na cultura ocidental contemporânea se atribui a um militar americano a elaboração da lei geral do pessimismo, a famosa Lei de Murphy: “Se uma coisa tem uma possibilidade mesmo que pequena de dar errada, ela dará”. E o seu complemento: “E dará da pior maneira possível”. Essas duas leis se aplicaram integralmente aqui em Caruaru na última terça feira (11), durante a votação do reajuste dos salários do prefeito e dos vereadores; a matéria foi aprovada, sendo piorada com a concessão do 13º salário aos vereadores e foi elevada ao extremo com as cenas de luta livre na calçada da Câmara.

E como se não bastassem as cenas dantescas os nossos legisladores municipais para culminar o processo, a cereja do bolo, numa decisão esquizofrênica aprovaram o veto do prefeito em relação às remunerações do executivo, mas derrubaram o que limitaria seus reajustes. O executivo percebeu o desgaste dessa pauta e acolhendo o clamor popular recuou, mas a Câmara, mais uma vez mostrou que as únicas transformações e mudanças que ocorreram nessa legislatura foram nas suas instalações físicas, que foi reformada e atualizada, convertendo-a num verdadeiro sepulcro caiado, bonita por fora, mas podre por dentro.

Desse episódio, que com certeza entrará para a história local, tiramos três conclusões, a primeira é a indiferença, a ignorância e o despreparo dos nossos vereadores a respeito do papel deles e da instituição. Isso ficou evidente na tentativa inútil de justificar o injustificável que acabou por colocar mais lenha na fogueira, com declarações infelizes, para não usar o termo imbecis, demonstrando a incapacidade dos edis em lidarem com a fiscalização soberana do povo sobre seus atos e votos.

Os vereadores tornaram visível o fosso que existe em nossas práticas democráticas, separando os eleitos dos eleitores, pois o único breve contato que há entre esses dois grupos é durante o período das campanhas. Apenas nesse curto momento eles desejam interagir com a sociedade, principalmente através de práticas assistencialistas. Isso ficou claro nas inúmeras entrevistas concedidas pelos vereadores, eleitos ou não no pós-pleito, quando todos reclamaram do alto valor cobrado pelo voto e a avidez do povo em pedir.

Quantos dos vereadores que tomarão posse no dia primeiro podem dizer que foram eleitos apenas com o chamado voto de opinião? Para quem investiu grandes somas na conquista do mandato, doze mil reais, realmente é pouco… Daí se entende o surto que acometeu alguns vereadores ao serem cobrados e fiscalizados, afinal se eles compraram seus mandatos porque os mesmos devem prestar contas do que fazem dele? A relação com o eleitor termina no momento em que o dinheiro foi entregue ou o favor prestado, pois o mandato para eles é uma posse adquirida e não uma representação conquistada.

A segunda constatação é que os vereadores acreditam piamente no esquecimento desses eventos, que apesar das repercussões negativas, tanto o aumento quanto as agressões, serão esquecidas e diluídas com as festas de fim de ano, podendo até mesmo o vereador Leonardo Chaves ser eleito presidente da Câmara. Afinal para os seus pares ele foi uma vítima inocente de uma agressão gratuita ao defender a instituição dos vândalos que protestavam. O que dá essa certeza a eles é que o grosso da população de Caruaru se comporta mais como massa do que uma população politicamente organizada agindo mais pela emoção do que pela razão, escolhendo seus candidatos não pelas biografias ou ideias, mas como torcidas organizadas manobradas pelo marketing e o assistencialismo; portanto, a crença deles é que a memória desse fato será soterrada por outras polêmicas ao longo dos próximos quatro anos e no próximo pleito estará devidamente esquecida.

Receberão os bônus, o salário, e o ônus será erodido pela memória curta do povo, pelo menos essa é a leitura que muitos dos nossos líderes fazem.
A terceira conclusão é um sinal de esperança e de alegria, pois das brumas desse escândalo temos a percepção que lentamente está surgindo uma opinião pública em Caruaru, a massa amorfa está sendo lentamente convertida em uma sociedade que fiscaliza e cobra seus direitos elegendo a moralidade e a impessoalidade como valores essenciais dos nossos representantes. Dais cinzas desse evento lamentável vemos brotar a esperança de uma nova Caruaru, forte e popular.

*Mário Benning é professor e analista político


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro