23 de maio de 2012 às 07h30min - Por Mário Flávio

Conhecer a História do PT é essencial para compreender sua dinâmica. Desde sua fundação, o PT é formado por diversas correntes de opinião com orientações que vão do centro, à esquerda, reivindicando as mais diferentes matrizes ideológicas: São comunistas, sociais democratas, trotskistas, stalinistas, leninistas, marxistas, morenistas, uma infinidade de grupos que se uniram em torno de um projeto de partido amplo que unificasse a luta dos trabalhadores por mudanças na sociedade que tragam para a sua classe melhorias, reformas e mudanças mais profundas.

Cada grupo tem seu programa e o programa do PT é resultado dos consensos existentes neles. Obviamente, política é correlação de forças e essa correlação é medida cotidianamente no PT, através de seus encontros setoriais, congressos, plenárias, reuniões, convenções, etc. Daí que em alguns momentos a proposta que tem mais força mude. O PT é um partido democrático e isso trás mais bônus que ônus.

Pra quem é de fora (e eu fui um desses), é difícil compreender a dinâmica interna desse partido, que tem,dentro de si correntes com opiniões extremamente divergentes (vide a defesa das PPPs, feita por Mauricio Rands e atacada pela corrente “O Trabalho” durante as prévias em Recife), mas que justamente por isso se tornou um dos maiores partidos da América Latina. Explico: Por conta da intensa disputa de ideias realizada internamente no PT, as forças políticas que o compõem permanecem sempre em alerta, formando quadros, realizando atividades próprias e buscando crescer, propagar suas orientações, para isso, é necessário filiar muita gente e preparar essa militância para os embates, o que faz com que os militantes petistas que atuam cotidianamente no partido adquiram conhecimento com uma rapidez quase sempre maior que os de outros partidos em que há mais consenso (consenso esse na maioria das vezes ditado pelo detentor de mandato ou pelo “dono” do partido hipotético em questão).

Compreendido o processo organizativo do PT, passemos ao fato que inspirou o artigo do amigo Jefferson Paz: As prévias de Recife. No ano de 2001, o PT chegou pela primeira vez à Prefeitura da capital, herdando uma cidade fétida, graças à falta de periodicidade na coleta (e engana-se quem pensar que era só na periferia, o centro de Recife era nojento). O Rio Capibaribe degradado e a cada inverno morriam mais de trinta pessoas nos deslizamentos de barreiras, os postos de saúde simplesmente não funcionavam por falta de material básico (luvas, máscaras, seringas, etc.).

As escolas eram uma piada à parte: Estudei em escolas municipais e a farda trazia bem grande as iniciais “PCR” e o nome da escola (a farda era de graça, mas a gente pagava aos diretores de escola) e as pessoas diziam que o significado não era “Prefeitura da Cidade do Recife”, mas “Piores Chiqueiros do Recife”. Escolas sujas, merenda ruim, professor sem material pra trabalhar, merendeiras muitas vezes sem preparo algum para lidar com a alimentação, esgoto a céu aberto.

Em apenas dois anos a situação mudou visivelmente: O Programa Guarda-Chuva fez com que Recife passasse seis anos sem registrar nenhuma morte por deslizamento, a coleta de lixo foi normalizada e implantou-se a coleta seletiva, o Rio Capibaribe passou a contar com manutenção planejada. As escolas receberam recursos e efetivou-se a fiscalização para o melhor aproveitamento do dinheiro público, implantou-se a gestão democrática com participação de toda a comunidade escolar, o fardamento passou a ser distribuído em kits que têm até sapatos.

A merenda escolar passaram ser produzida com matéria prima comprada dos agricultores familiares e pequenos produtores, em empresas que ganharam licitações públicas, com acompanhamento de nutricionistas e distribuídas diariamente. Brasília Teimosa, antes um atestado de incompetência para os governantes, hoje é um exemplo de superação e de ação que trás dignidade aos cidadãos. Cuidamos das pessoas implantando políticas sociais e gerando emprego e renda!

Entre essas políticas, uma foi fundamental: O Orçamento Participativo (maior do mundo), que deu às pessoas a oportunidade de decidir os destinos dos investimentos da cidade, gerando protagonismo e democracia real. Isso diminuiu a influência dos aproveitadores presentes na Câmara de Vereadores, que se elegiam não para legislar, mas para se beneficiar do cargo trocando votos por obras que não eram de sua responsabilidade, mas sim do Poder Executivo, provocando uma revolução cultural na política da cidade.

Em 2004 João Paulo foi reeleito e em 2008, conseguiu eleger seu sucessor, João da Costa, numa eleição em que nem todos os petistas concordavam com seu nome. Eu não era do PT ainda e embora não achasse que João da Costa era o melhor quadro para representar a esquerda, fiz campanha e votei nele pelo projeto político que defendemos. Assisti, então, a um mar de sujeira proveniente da propaganda dos partidos de direita, que se utilizaram de preconceitos de classe, religiosos e regionais para atacar o candidato do PT.

No último domingo, participei das prévias do PT em Recife, junto aos companheiros da DS de Caruaru que foram dar sua contribuição, com uma certeza: independente do resultado eu pedirei o voto no PT. Para mim, é só mais um momento de disputa de ideias dentro do partido e o mais importante é o projeto que construímos em Recife e que queremos levar para todo o Brasil: Cidades mais humanas, com respeito às pessoas, onde eu posso andar nas comunidades e olhar nos olhos dos eleitores com a certeza de que o possível nós fizemos e o que não foi, tentamos e continuaremos batalhando para que aconteça!

Se há disputa pelo poder no PT? Existe no PT como existe em qualquer lugar onde existe poder. A diferença é que aqui a disputa é aberta e baseada em: ideias e ideais. Diferentemente do PSDB, por exemplo, em que Serra e Aécio seguem a mesma lógica e permanecem nos bastidores utilizando-se de dossiês e vazamentos para definir quem será o próximo candidato e presidente dos tucanos. Se há episódios de corrupção com envolvimento de filiados ao PT? É possível, com a diferença que somos o partido que mais contribuiu com o combate à corrupção no país, valorizando e dando condições de trabalho à Polícia Federal e fortalecendo os mecanismos de controle social.

Enquanto isso, assistimos às cachoeiras de denúncias que a grande mídia tenta esconder, como a compra de votos para aprovar a reeleição, as informações privilegiadas nas privatizações e os esquemas entre contraventores e os governos do PSDB. Esse sistema é corrupto e corrompe as pessoas e instituições. A diferença está na atitude diante disso.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro