20 de janeiro de 2012 às 10h00min - Por Mário Flávio

O amor é dos mais antigos sentimentos humanos. Deve ter surgido há dezenas de milhares de anos, quando a necessidade de uns humanos por outros gerou o cuidado recíproco: era preciso cuidar para poder resistir a tudo. São várias as facetas do amor: amor materno/paterno, filial, fraternal, erótico-afetivo, caridade, amizade, enfim, diversos nomes e muita grandeza. Aqui, no entanto, pretendo abordar um dos aspectos do amor “romântico”, da paquera, do flerte… O amor tem história… e como tem… Penso, agora, nas declarações de amor do “Cântico dos Cânticos”, nas “Mil e Uma Noites”, nas palavras proferidas nos textos do teatro grego, no singelo amor de Dante por Beatriz ou mesmo no amor e reciprocidade de Julieta e Romeu…

Mas, e o que o amor tem a ver com esta coluna? Tudo! Acredito que os nossos leitures vão lembrar (ou já ouviram falar) do famoso “quem-me-quer”, o passeio de moças e rapazes na Festa do Comércio, na Caruaru de tempos saudosos… Era uma das três mais importantes festas da história caruaruense, juntamente com o Carnaval e o São João. Esta festa existiu, com este nome, entre os anos 1930 e 1990, tendo, anteriormente, o nome de Festa da Conceição (desde o final do século XVIII).

Nessa festa, que ocorria nos espaços próximos à Capela da Conceição (Praça Coronel João Guilherme e adjacências), havia carrosséis, barracas de comidas, bebidas, espaços de danças, jogos de azar. O Pastoril do Padre Zacarias animava a multidão e era destaque. O palco, com suas atrações locais e nacionais, atraía multidões da própria cidade e região.

E um capítulo especial era o tal “quem-me-quer” (também chamado, em tempos mais antigos, de “footing”, ou seja, o passeio, o desfile, no qual ocorria o flerte). Quantos casais surgiram do “quem-me-quer”? E, também, quantos devem ter terminado? Quantas mocinhas choraram ao verem seus “amores” passando, de mãos dadas, com outras garotas, a comerem algodão-doce ou uma “maçã-do-amor”? Quantos rapazes, por sua vez, voltaram para casa amargurados, perderam o sono, depois de verem suas pretendentes enamoradas de outros galanteadores?

No “quem-me-quer” havia a paquera, mas, também, o simples passeio de exibição das roupas e calçados novos, os penteados, os sorrisos, as poses, a teatralização de coisas, caras e bocas. Engana-se quem pensa que as barreiras sócio-econômicas atrapalhavam o flerte. Talvez, por preconceito das famílias abastadas, o romance não fosse à frente, pela falta de um “sobrenome” (como se o nome de família fizesse o Homem e a Mulher), mas, paquera acontecia sim!

Vale lembrar que as práticas, diferentes de hoje, não significam maior pureza ou melhores costumes, mas, sim, práticas daqueles tempos. Em vez do “ficar”, “ficar-ficando”, “ficar valendo”, “namorando sério” de hoje em dia, a paquera, o flerte ocorria com olhares, sorrisos, apertos de mão, roçadas de um braço no braço alheio. Não cabe pensar se era mais correto ou respeitoso que hoje, pois, cada momento tem suas formas de ser, agir e pensar. Apenas era… As coisas eram assim e foram transformadas no que são hoje. Agora, cabe, aos que viveram o “quem-me-quer”, lembrar das histórias, sorrir e comentar com os amigos…

Daniel Silva é Mestre em História


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro