27 de fevereiro de 2014 às 09h25min - Por Mário Flávio

Durante o período da Lei Seca nos Estados Unidos, que durou de 1919 a 1933, um agente do tesouro americano se destacou por seu impecável e insubornável trabalho: Eliot Ness. Mais tarde a tv e o cinema imortalizaram com toques de ficção a trajetória profissional do destemido agente. Eliot será para sempre o Intocável que mandou para as grades o não menos famoso gângster ítalo-americano Al Capone.

Pois bem, no âmbito municipal, temos hoje nosso paralelo personagem que vem realizando um brilhante trabalho no cenário investigativo para desbaratar a formação de quadrilha e crimes contra o interesse público, o nosso Eliot Ness e espero que também intocável, delegado Erick Lessa.

Após a Operação Ponto Final 1 e Ponto Final 2, existe a expectativa da Ponto Final 3, porém, gostaria de abordar o tema, não com detalhes investigativos, isso já está denso nos autos do inquérito, nas provas e gravações colhidas pelas autoridades policiais, o que quero abordar é ir além e anteriormente a tudo isto, portanto não vou discorrer sobre os pontos finais, quero abordar as reticências.

Sim, as reticências são o aspecto mais intrigante e estimulante de discutirmos sobre o quadro de metástase da política e dos pseudo homens públicos que de seus cargos se locupletam. Vejamos então o que há por trás disso tudo, pois é aí onde surgem estas reticências que consequentemente geram estes Pontos Finais.

O homem público, por natureza, deveria ser uma figura ilibada, reta, de comportamento destacado e exemplar. Entretanto quem está ocupando cargos eletivos, ou por estes nomeados que têm em seu históricos estes atributos de conduta moral e ética?

Nosso Eliot Ness do agreste, se notabiliza por ter demonstrado, na condição de bom agente público que o é, acredito não seja ele um exemplo único, como ele existem outros e outros, só que a conduta correta do nosso delegado Erick, é uma exceção a regra, pois a regra de cima para baixo demonstrada por nossos homens públicos, é uma inversão do legendário Robin Hood, que roubava dos ricos para distribuir com os pobres, a máxima dos homens públicos popularmente eleitos em sua grande e indiscutível maioria é a do Roube Tudo dos pobres para que eles próprios fiquem cada vez mais ricos.

A gestão da Coisa Pública, por poucos que lá chegam, perante uma população inconsciente de seus direitos e deveres, fruto de uma ausência de boa educação e da deformação do pensamento e senso ético, resulta na corrupção endêmica que vive nossa sociedade. E neste ponto começa a situação declinante desta mesma sociedade. Levar vantagem a qualquer custo, faz parte do DNA tupiniquim. Vários fatores sócio econômicos e culturais nos levaram até este ponto. Porém a ruptura se faz necessário e a ruptura plena é o dissecar destas tantas reticências.

E onde estão as reticências? Elas estão nas salas a meia luz das negociações e negociatas políticas ainda nos períodos pré-eleitorais e eleitorais. São estes encontros que dão início a formação da mercearia política, que estabelecem os preços, as vantagens e as mercadorias a serem ofertadas. No caso eles próprios são a “Mercadoria”. E é neste grande varejão imoral que se formam os critérios da comercialização.

Com um detalhe, este “produto”, resultante desta lógica infame, tem vontade, opinião, ambição e ganância próprias. Este produto é “o eleito”. Ele se auto regulamenta e gera sua própria precificação, e os recursos que financiam este mercado negro da anti ética e conduta deplorável, são posteriormente pagos com muitos juros e correções pelos contribuintes que deveriam receber um serviço público decente a qualquer cidadão, porém a máfia que criou a mercearia da anti ética, cobra através das licitações fraudadas, das votações viciadas, dos projetos não discutidos, o seu quinhão de lucros sem escrúpulos e sem limites. Ou seja, ao se candidatar, o sujeito se coloca no tabuleiro, fazendo promessas de mercador, comprando votos a preço de banana e ao se eleger entrega um serviço público de resto de feira.

As reticências estão nos conchavos dos partidecos de aluguel, das figuras sem expressão e sem decência que se tornam presidentes destes partidos com o intuito de comercializar a secundarem dos tempos de tv para o programa eleitoral gratuito (que de gratuito não tem nada, haja visto que são investidos milhões de reais pelos candidatos e estes milhões são pagos a posteriori por todos nós através dos recursos desviados dos cofres públicos), e ao final formas as chamadas coligações eleitorais, que são apresentadas aos eleitores, devidamente maquiadas de “grande aliança” em defesa dos interesses populares.

As reticências estão nos milhões que são gastos nas pesquisas de opinião pública, pelos diversos níveis de governo, que norteiam muito bem os marqueteiros políticos a criarem produtos de massa, com a finalidade de convencimento eleitoral. Podemos citar alguns frutos das mentes de grandes marqueteiros nacionais, que foram embalados e entregues a população como se fossem fruto de estudos de técnicos especializados no assunto, por exemplo: Projeto Singapura, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família (ou mensalinho, como queiram) e outros tantos Programas populescos espalhados país afora. Todos eles frutos dos neurônios de marqueteiros dos “brilhantes profissionais” que são inclusive produto tipo exportação.

As reticências também podem ser vistas nos programas de governo apresentados no programa eleitoral, e que em sua grande maioria também são frutos dessas mentes caras dos marqueteiros políticos, e é por isto que eles cobram milhões e milhões para produzirem uma campanha eleitoral, ofertando um grande “pacote” milionário que é declarado como míseras centenas de reais posteriormente a justiça eleitoral.

Enfim, não restam reticências nas cenas gravadas, nos diálogos apresentados, mas infelizmente, são fatos corriqueiros nas conversas mantidas por estas pessoas em seu dia-a-dia. A disputa fervorosa, a energia e os recursos financeiros aplicados nas milionárias campanhas eleitorais, verdadeiras batalhas repletas de embates, acusações, dossiês, declarações e discursos inflamados, nem de longe são por preocupação com o bem geral do “povo”. A lei é burlada mesmo antes da chamada “figura pública” sentar em seu birô e colocar a caneta na mão. A lei já é atropelada durante as campanhas eleitorais e nas suas prestações de contas. E por fim, cada um deles, de uma forma ou de outra, flagrados ou não, seguem a risca o dito popular, “pau que nasce torto, morre torto”.

Todas estas reticências e muitas e muitas outras, poderíamos falar sobre isto horas seguidas, são desconhecidas da maioria da população, pois elas estão grafadas apenas nas entrelinhas dos porões da politicagem nacional e de seus agentes. Grande parte destas reticências são desconhecidas aos olhos dos órgãos fiscalizadores, mas também, as vezes nem tanto.

São tantas reticências, que parecem coisas de cinema, como os Intocáveis e como Robin Hood, que nascem, crescem e se proliferam, e o que nos resta é uma verdadeira crase gramatical, pois sempre nos deparamos com as exclamações, que nos deixam repletos de interrogações, separadas apenas por vírgulas, sem que realmente cheguemos a nenhum ponto final, e fiquemos eternamente perdidos em meio a tantas reticências.

*Jackson Carvalho é colunista do blog e publicitário


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro