2 de abril de 2014 às 06h49min - Por Mário Flávio

A lembrança dos 50 anos do golpe militar reabriu velhas feridas no tecido social e serviu para relembrar o quão frágil e recente é a nossa democracia. Revelou também como o desconhecimento dos fatos históricos e dos bastidores do poder alimentam a proliferação de vários mitos e estimulam ainda hoje o saudosismo do período de exceção e até mesmo a sua volta. Em 1964 a polarização entre a esquerda e direita tinha chegado ao extremo, com ambos os lados defendendo o golpe. De um lado membros da esquerda, capitaneados por Brizola, queriam um regime forte, como fora a Era Vargas, para realizar as reformas sociais de cunho nacionalista na marra.

Essa esquerda radical, representada pelo PTB, não queria implantar o socialismo como comumente se alardeia, mas sim um regime caudilhesco. Isso é comprovado nas memórias de Gregório Bezerra, liderança nacional do PCB, quando ele se arrepende de não ter apoiado o Governo Jango. Do outro lado a UDN, que tinha o apoio do capital, dos meios de comunicação, mas que não tinha votos suficientes para chegar a presidência. E que via seus planos de vencer em 1965 atropelados pela volta de Juscelino, ou pelo candidato apoiado por Jango, que era um presidente popular, e tinha galvanizado a opinião pública com o debate sobre as reformas de base, ou sociais.

Martelando na mídia 24 horas por dia, denúncias infundadas de corrupção, de incompetência administrativa, de ameaça à família, de uma ditadura a La Perón nos país. Com o apoio indisfarçado da imprensa, de setores conservadores da Igreja e dos militares. A UDN criou o ambiente e o clima para o golpe. Equilibrando-se entre esses dois grupos tinha o presidente João Goulart, um rico latifundiário, que queria deixar sua marca na história. Como Getúlio deixou, ao criar a CLT e a Petrobrás e JK também com Brasília, a sua marca seria as reformas sociais, logo acusadas pela direita de ser a implantação do socialismo no Brasil.

Por que Jango não se afastou dos seus radicais e calou a direita? Numa audiência com o Presidente Kennedy, ele deu a reposta, ao dizer que a direita tinha se unido contra ele no país e ele não podia prescindir dos votos e do apoio desse grupo, a esquerda radical, em virtude do clima político acirrado. Veio o golpe, e a decepção da UDN, que esperava que os militares fizessem uma intervenção rápida e um expurgo político, que lhe garantisse a vitória em 1965, ou com Carlos Lacerda ou com Magalhães Pinto. Porém os militares, que sempre participaram como fiadores de todos os governos desde a Proclamação da República, resolveram assumir sem intermediários e frustraram as lideranças civis do golpe.

O mito do risco do comunismo ou de golpe de esquerda, divulgados atualmente, é a forma como os apoiadores do golpe têm para justificar seu apoio a um regime que cassou não apenas os militantes de esquerda, mas quaisquer pessoas que discordasse do regime, como JK e Seixas Dória. Que censurou a imprensa e suspenderam as garantias constitucionais, que fez tudo aquilo que diziam que a esquerda ia fazer e que o seu movimento militar deveria evitar. Que prometeu a formação de comissões especiais de inquérito para provar as denúncias de corrupção, contra Jango e JK, e que apesar dos plenos poderes e de revirarem a administração pública não encontraram nenhuma prova, nada. Assim como nunca foi encontrado prova nenhuma das milícias e dos arsenais clandestinos que estariam sendo criados por Jango.

Porém ainda hoje vivemos as consequências do regime militar, lidamos com a sua herança maldita. O nosso sistema político capenga e viciado, foi o gestado pela eminência parda do regime, o General Golbery. Foi durante o período militar que o Brasil urbanizou-se mais intensamente e que tivemos a hecatombe das favelas por todo território nacional e o próprio crime organizado dá as caras durante o regime militar, com o Comando Vermelho, liderando o tráfico e organizando um poder paralelo no Rio de Janeiro.

A ditadura interrompeu o nosso amadurecimento institucional, bloqueou o surgimento de novas lideranças políticas, endividou o país, torturou e matou indiscriminadamente. A própria guerrilha urbana, foi consequência dos anos de chumbo e não sua causa.
Já é tempo de pararmos de crer em salvadores nacionais, ou em regimes de purificação. A única forma de transformamos o país naquilo que queremos, é fortalecendo a democracia e as instituições. Afinal como disse Winston Churchill: a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.

*Mário Benning é professor e analista político.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro