22 de fevereiro de 2013 às 11h25min - Por Mário Flávio

Há cerca de dois mil anos numa pobre e esquecida província do Império Romano teve início um movimento religioso que revolucionaria a humanidade, foi tão impactante que dividiu a história antes e depois do nascimento de seu fundador, o cristianismo. O que diferenciou esse movimento dos demais foi à introdução de novos valores éticos em várias esferas da vida social; a relação com o próximo deveria ser baseada no amor e na solidariedade, pois este identifica todos os membros da sociedade como sendo irmãos e iguais perante o criador, tornando como regra áurea o amor ao próximo como a si mesmo.

Coloca como indispensável na superação nos conflitos do cotidiano instrumentos como a tolerância e o perdão, bem evidentes na parábola do bom samaritano ou no episódio da mulher adúltera. Focando sempre na necessidade reforma moral, o nascer de novo, para que cada um conquistasse o reino dos céus, evitando as condenações morais ao próximo, o não julgue para não serdes julgado, preocupando-se essencialmente com a consolidação da fé em nossos corações. Na prática religiosa, colocou à necessidade da reflexão e discrição, evitando cerimônias inúteis, atos vazios ou comportamentos extravagantes, condenando o espetáculo da fé usando a analogia com os sepulcros caiados, a fé deveria ser algo íntimo, pessoal.

Na relação com o sagrado, alterou a visão de Deus do judaísmo farisaico, ao divulgar a ideia de um Deus pai, um Deus de amor e perdão bem evidente na parábola do filho pródigo; um Deus universal e não apenas de um povo ou de uma religião, como evidencia no episódio do centurião romano.

Nas relações da fé com o dinheiro ou com o poder político, colocou a separação entre o os dois como pedra angular ao proferir o famoso: “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. E com relação às doações e ao lado financeiro das religiões, usou o equilíbrio ao aproveitar o episódio do óbolo da viúva, ao dizer que o importante não é a soma total doada, mas o sentimento envolvido colocando a necessidade do desprendimento posses materiais.

Infelizmente, atualmente todas essas intenções estão sendo descaracterizadas, inúmeras agremiações religiosas ditas cristãs, estão bem distante do espírito do cristianismo, estão mais próximas do farisaísmo do que de Cristo. Pregam um Deus sectário, vingativo e cruel. Lançam condenações, reprovações e estimulam atos de intolerância a todos os que não se enquadram em suas visões de mundo. Recentemente, numa escola do Amazonas, os alunos estimulados pelos pais e líderes religiosos, recusaram-se a fazer um trabalho sobre a herança africana alegando que era “coisa” de satanás e homossexuais. A cantora Paula Fernandes, ao assumir sua condição de espírita, foi hostilizada nas redes sociais e entre inúmeros outros casos que ocorrerem cotidianamente.

Pregam uma teologia da prosperidade entronizando a conquista de posses materiais como sendo um dos objetivos da fé, sendo estas diretamente proporcionais ao valor doado pelo fiel. Usam músicas de gostos duvidosos, superficiais e até ridículas para a “divulgar” a mensagem divina, surgindo um filão de cantores que migram para o segmento religioso após fracassar na carreira laica. E algumas chegam ao absurdo de condicionarem a intensidade da fé ao barulho gerado em suas reuniões, algumas beirando a histeria coletiva. E num lance de extrema contradição, atestando a falta de bom senso chega-se a propor a realização de eventos religiosos financiados pelo poder público para membros de denominações religiosas, como o São João Gospel ou a noite católica.

Na seara política o quadro é pior, criam-se bancadas religiosas que interferem nas políticas públicas sem possuir muitas vezes o conhecimento prévio necessário à análise das matérias, limitando a atuação do Estado por caprichos religiosos. Vide as questões de inserção das aulas de educação sexual nas escolas, o combate à homofobia ou a discussão sobre o planejamento familiar. Conduzem o voto dos fiéis em causa própria e confundem por má fé ou ignorância laicicismo com ateísmo, assumindo o papel de verdadeiros coronéis religiosos.

Ser cristão não significa ser permissivo ou submisso, aos desmandos ou desvios de valores tão comuns atualmente, mas que escolhemos como campo de atuação primeiramente consolidar o reino de Deus dentro de nós, não julgando ou condenando o próximo, pois como o Cristo afirmava a cada um segundo as suas obras. Tolerância não significa aceitação, ou submissão, mas sim o respeito às diferenças e a tentativa de influenciar a sociedade por meio do exemplo e de ações concretas em prol da comunidade, afinal a fé sem obras nada vale, como afirmava São Paulo.
Se hoje as denominações cristãs veem perdendo fiéis, é mais pelas ações desses ditos fiéis e líderes que desvirtuaram o cristianismo e o transformaram num poço de rancor, ódio e violência.

As ideias cristãs foram violentadas e contaminadas ao serem incorporadas ao cotidiano da sociedade, como uma gota de chuva que é pura até chocar-se com o solo e virar lama. O cristianismo é e sempre será uma ótima filosofia de vida e religião apesar dos “cristãos”.

*Mário Benning é analista político e professor do IFPE


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro