13 de setembro de 2012 às 17h25min - Por Mário Flávio

O passado pode ser fonte de alegria, quando relembramos experiências agradáveis, mas também de angústia quando confrontamos com nossos erros e perdas.

Sinto-me assim quando vejo que minhas filhas dificilmente terão direito a experimentar o prazer de brincar na rua, de chegar em casa despreocupadas, de conversar numa calçada com colegas, algo tão comum na adolescência. A violência podou a nossa vida social e nos incutiu sentimento do medo, que passou a nortear ou regular o nosso dia a dia.

Quando chegamos em casa olhamos para ver se não tem alguém suspeito nas imediações, criamos cães de grande porte e colocamos a placa avisando, cercas elétricas… Sendo assim verdadeiras táticas de dissuasão, pois indiretamente sinalizamos, aos criminosos, que nossa casa é mais protegida que a do vizinho e portanto seria mais seguro para o ladrão tentar lá.

Se viajarmos, tememos o risco de arrombamentos, o receio de danos ao patrimônio ou a nossa vida e principalmente dos nossos entes queridos nos assola e nos domina. Quando circulo por alguns bairros de Caruaru, noto pouquíssimas pessoas nas ruas, nem mesmo jovens ou crianças, que crescem dentro de áreas de lazer em edifícios ou condomínios fechados.

Sendo transportados por seus pais entre escolas, cursos, academias e escolinhas de esportes em operações de desembarque e embarque o mais rápido possível, para não se expor a qualquer risco desnecessário. Nós banalizamos a violência e ao invés de cobrarmos soluções, criamos táticas de adaptações, achamos normal ser assim.

Falando com um parente em Recife, o mesmo anda no seu carro com uma carteira e celular, que ele chama: “do ladrão”, porque como o mesmo já foi assaltado no trânsito, e para não perder o seu smartphone ele entrega esse modelo popular e a carteira, que tem dinheiro, para o ladrão não se estressar e atirar. A que ponto chegamos?

Seria interessante pesquisarmos até que ponto a verticalização que vem ocorrendo em Caruaru, além das causas normais no crescimento de uma cidade, também não é motivada pela insegurança. Já que o prédio é considerado mais seguro do que uma casa, embora em São Paulo tenham virado também alvo dos arrastões.

É por essas e outras que afirmo que viramos reféns do medo. Embora se propague as reduções nas estatísticas da violência, frequentemente a realidade vem mais forte e derruba qualquer esperança de uma sociedade mais pacífica.

Precisamos que as políticas públicas tratem a violência baseadas num tripé: repressão, recuperação e prevenção. Qualquer política que só se baseie na repressão está fadada ao fracasso, basta relembrar o sentimento de pânico em massa que assolou Caruaru quando das greves da PM, a responsável pelo policiamento ostensivo.

A impressão que passava era que hordas de bárbaros iriam, a qualquer momento, dizimar a civilização. Basta notar a recente “pacificação” do Morro Bom Jesus, que virou Monte, não sei como.

Se retirarmos o policiamento de lá essa área continuará segura ou pacificada? Que outros serviços além da polícia para coibir o crime subiram o Morro?

Temos que combater o crime, mas também recuperar aqueles que queiram se reintegrar a sociedade e principalmente desmanchar as engrenagens sociais injustas que geram “novos bandidos” diariamente, e que substituem como peças de reposição os que são eliminados.

Essas políticas de inserção social, são, principalmente, responsabilidade do município, em chegar às áreas de riscos com os serviços públicos de qualidade para assim diminuir as fraturas sociais e reduzir a segregação.

Pois só desse modo poderemos retomar o controle das nossas vidas e ações do fantasma do medo.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro