11 de outubro de 2013 às 10h55min - Por Mário Flávio

Até o final de semana passado Eduardo Campos realizou um dança singular. Permitindo que seus aliados propagassem sua candidatura a presidente, ao mesmo tempo em que ele despistava. Afirmando que a sua definição só ocorreria em março de 2014. Em uma entrevista recente, o mesmo colocou que não sairia candidato por sair, para ser jogado no acostamento pelo PT e pelo PSDB. E ainda alimentava a esperança do naufrágio da candidatura de Dilma e a sua elevação ao papel de herdeiro do lulismo. Porém se isso não fosse viável, seus correligionários, já falavam numa candidatura a senador ou mesmo deputado, dando margem a um recuo.

Diante desse cenário nebuloso ele contou com a leniência tanto do PT quanto do PSDB. O primeiro receoso de um segundo turno evitou explorar as contradições de seu governo midiático interessado em seu apoio. E o segundo querendo levar a disputa para os quarenta e cinco do segundo tempo, iria até fornecer um partido nanico para vitaminar a sua candidatura, desde de que quem passasse para a segundo turno fosse Aécio Neves.

Porém tudo mudou no último fim de semana com a adesão de Marina Silva ao PSB. Comemorada como uma jogada de mestre, um lance genial, a filiação de Marina produziu um fato jornalístico, e todos estão ansiosos para ver os desdobramentos eleitorais. Se tal adesão irá atrair mais partidos para a coligação? Ou adensará o nome de Eduardo no centro sul, com a transferência de votos da verde para ele? Teremos que aguardar as próximas pesquisas.
Todavia o que ficou claro com essa manobra, é que a candidatura de Campos tornou-se irreversível, deu o passo a frente que faltava.

E seu conteúdo mudou de uma candidatura de continuidade ao PT passará a ser vista como oposição. Tanto como consequência da fala de Marina em por fim ao chavismo do PT, como pelo tom do seu último programa, afirmando que o governo Dilma já deu o que tinha de dar. Ao dar esse outro passo, ir para oposição, a sua maior chance de sucesso passa a ser a desidratação de Aécio Neves. Com a sua candidatura preenchendo esse espaço, o da direita e do antipetismo.

Porém vários ruídos já surgiram nessa insólita aliança, que estão sendo explorados tanto pelo PT quanto pelo PSDB, como também pela grande mídia. Marina em menos de uma semana revelou-se uma verdadeira Diva, pois ela sabe o quanto acrescenta ao projeto de poder do socialista. E não vai se contentar em sair dos holofotes, em desaparecer para que Eduardo cresça. Fato confirmado pelas declarações dela que poderia ser a cabeça de chapa do PSB, substituindo Eduardo Campos.

Esse comportamento “dival” também apareceu na sua intromissão nas alianças já montadas, vetando membros do DEM e do agronegócio. Exercendo uma verdadeira pressão e rearranjos na estrutura e na estratégia do partido, mesmo sendo uma cristã nova no seio do PSB. Pressão que aumentará se Eduardo não atingir pelo menos 15% até o primeiro semestre do próximo ano. Será pressionado a abdicar em favor da Verde e verá seu projeto de ganhar escopo nacional em 2014 para disputar pra valer 2018 ser ameaçado.

A chamada grande mídia, e também os ditos blogs progressistas, estão batendo pesado no que eles consideram como sendo superficialidade e contradições do discurso da dupla Marina-Campos. Ninguém sabe o que os mesmos pensam sobre a economia nacional e como tirá-la do marasmo durante uma recessão mundial. Suas falas apenas adjetivam as falhas do governo federal, mas não oferecem alternativas. Pululam em seus pronunciamentos termos como: nova política, eficiência e meritocracia, sem que ninguém saiba direito o que isso significa ou como colocá-los em prática.

Outro elemento questionado são as contradições entre o discurso e a prática. O quão de esquerda o PSB ainda é? Já que faz muito tempo que o termo socialista praticamente deixou de ser pronunciado e tornou-se inexistente nas práticas de governo. Embora o PSB critique o aparelhamento da máquina pelo PT, o mesmo também dividiu os cargos entre aliados tanto no Governo do Estado quanto na Prefeitura do Recife. Sem falar dos inúmeros políticos lotados como assessores especiais do Governador.

E o mais recente acréscimo à lista de incoerências, foi à afirmativa de Campos que era necessário eliminarem as velhas raposas da política nacional. Entretanto o Governador tem percorrido o país filiando ao seu partido ou se coligando com membros da direita reacionária e retrograda. Ressuscitando raposas que tinham sido varridas do poder, como: Heráclito Fortes, Bornhausen. E se aliando a Ronaldo Caiado, que revelou que já tinha sido convidado a ser ministro da agricultura numa eventual vitória, repetindo as mesmas práticas que ele tanto crítica no PT. Passando a impressão que para Campos as únicas raposas ruins são as que não o apoiam, com as demais ele convive, e bem.

Se o mesmo irá se desvencilhar desses torvelinhos e terá sucesso, ou se será rifado teremos que aguardar o desenrolar dos eventos que foram deflagrados. Mas em todo caso ainda há a possibilidade de seguir o conselho de um outro socialista, Lenin, de que muitas vezes é necessário dar um passo atrás para poder seguir adiante.

*Mário Benning é analista político e professor


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro