4 de dezembro de 2013 às 15h25min - Por Mário Flávio

No século XIX o Chanceler Bismarck, pai da unificação alemã, ganhou fama de ser um negociador astuto. Uma das suas principais contribuições à ciência política foi o conceito de realpolitik, ou política de resultados. Com esse conceito, as negociações deviam ser elaboradas em bases reais e não em cima de elementos intangíveis ou etéreos.

O que interessava realmente eram os resultados reais obtidos, mesmo que para isso tivessem que ultrapassar alguns limites. Para caracterizar essa linha de pensamento, Bismarck proferiu: “Leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas.” Desde que o governo funcionasse e imprimisse a sua marca, estava tudo bem.

O mensalão foi a salsicha do PT, a exposição dos bastidores do poder como ele é, e não como nos gostaríamos que ele fosse. Esse conjuntura foi apresentada ao PT logo no início de 2003. A eleição de Lula mexeu com o imaginário popular, com a eleição de um operário para Presidente, criando enormes expectativas. Nesse contexto os desafios eram imensos, pois como seria o primeiro governo trabalhista após a redemocratização, o fracasso marcaria de maneira indelével o partido, com a pecha que a esquerda não sabia governar.

Para isso foi montado um gabinete de notáveis nas mais diversas áreas, oriundos dos chamados aliados históricos: PCdoB, PSB e o PDT. Contudo, um dos obstáculos maiores a implantação das políticas de governo, seria à tão chamada governabilidade. Uma praga que assola a nossa história republicana, e que foi agravada pela Constituição de 1988, que exigia ampla maioria nas duas casas, Câmara e Senado, e, em alguns casos, votação em dois turnos.

Esse desafio da montagem de uma base ampla no Congresso, que garantisse a aprovação das matérias de interesse do governo, foi contornado com a utilização de estratégias diversas ao longo da nossa história. Com Juscelino, era a distribuição de cartórios, durante a ditadura os trens da alegria; com Sarney as emissoras de rádio; e com FHC, a entrega de porteiras fechadas dos ministérios aos partidos da base; e se fosse o caso, como na aprovação da emenda da reeleição, o pagamento em dinheiro aos deputados.

Para construir a maioria necessária restavam ao PT três opções: a primeira coligar-se aos setores tradicionais da política e entregar os ministérios com porteira fechada, como fez o PSDB, o que descaracterizaria o discurso de renovação. A segunda, colocar as massas nas ruas e fazer o que Chavez fez na Venezuela, expurgar da vida nacional a oposição e provocar uma ruptura democrática.

E a terceira opção, trabalhar no varejo, cooptar os votos necessários, comprar os deputados e implantar as suas políticas públicas. O partido escolheu a terceira, agiu como Bismark, porém em 2005 o escândalo estourou e foi logo batizado de mensalão. Para a oposição foi a chance de jogar o governo nas cordas e sangrá-lo visando as eleição de 2006, agindo como se o esquema fosse inédito. Já para o PT, representou a perda do seu principal ativo, a bandeira ética, um capital que o partido vem tentando recuperar desde então.

O julgamento da mensalão terminou, mesmo envolto em inúmeras polêmicas, as penas já estão sendo cumpridas. Mas a pergunta que fica é: o que mudou? Nada. Afinal não aproveitamos o momento, nem a situação e nem a oposição, para discutir as razões que levaram o PT e todos os governos anteriores a terem que aderir ao fisiologismo para governar.

A discussão se resumiu em uma troca de acusações, entre “tucanalhas” e “petralhas”, sobre em qual governo se roubou mais, no do PT ou do PSDB. Não aproveitamos o momento para desmontar as engrenagens que geraram o mensalão, de realizar uma verdadeira reforma política. Ficamos apenas nas discussões cosméticas sobre o tamanho de uma pintura de muro, ou se usa ou não outdoor, mas nada sobre o fim do voto proporcional ou das coligações partidárias. Já aprontamos assim o recheio da salsicha para o próximo presidente, independente de quem quer que seja.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro