20 de fevereiro de 2013 às 21h25min - Por Mário Flávio

Não tenho o hábito de escrever textos sobre artistas que não estejam relacionados à sua música. Este é uma exceção. Não pretendo falar da música de Ivete Sangalo, mas da sua irresponsabilidade enquanto pessoa pública, e consequentemente como referencial (!) para muitos jovens. Antes de adentrar no mérito Sangaliano, deixo claro que não acho pecado alguém ser rico e famoso. É consequência do trabalho! Parabéns a todos os ricos e famosos. Mas a pergunta é: existe um limite moral para o artista? É legítimo ao artista se render a qualquer tipo de trabalho? O que isso tem a ver comigo e com você? Tentarei responder.

Penso que Ivete Sangalo – tanto quanto o mais astucioso político – vem subestimando a inteligência dos brasileiros sistematicamente em diversas situações. Renderia um pequeno livro se fosse falar de todas! Mas vou me ater a apenas dois exemplos. O primeiro é algo muito sutil. Talvez você nem perceba, mas está em sua casa todos os dias! É a propaganda de uma determinada tintura de cabelo estrelada pela protagonista deste texto. Na peça publicitária, a notória morena cita uma série de tons de cabelo, para encerrar triunfalmente com a tonalidade “LOIRO IVETE”… Até pensei que o nome “Ivete” fosse de fato um termo técnico para uma tonalidade… Mas não… Ivete Sangalo quer me convencer que ela é LOIRA! LOIRO IVETE?!

Você pode até culpar o publicitário (ir)responsável: seria mais lógico chamar uma artista loira genérica qualquer! Mas onde fica a responsabilidade de Ivete em aceitar isso? O que passou na sua cabecinha quando leu o script onde rezava que ela teria que convencer os telespectadores de que ela era loira? Ivete fazer propaganda de tintura loira é o equivalente a Stephen Hawking fazer propaganda de tênis de corrida da Nike, ou o Sepultura fazer propaganda do carnaval de Pernambuco. Não dá, minha senhora!

Seria digno se ela se recusasse a fazer essa propaganda, e até não perderia a piada: “Esse departamento de cabelo loiro é com Claudia Leite!”. Até aí tudo bem. Este é só um desabafo. O pior começa agora. Vamos ao segundo ponto. A não ser que você seja um ignorante que não lê jornal, todos ficaram sabendo que Ivete Sangalo recebeu um “módico” cache de R$ 650.000 – DINHEIRO PÚBLICO – para fazer a inauguração do Hospital Regional Norte lá no Ceará… Quando li a notícia pela primeira vez, “Ivete Sangalo inaugura hospital no Ceará”, imaginei uma cena digna de Quentin Tarantino: estava lá o palanque montado, todas as autoridades junto com a cantora; de repente, com um sorriso no rosto, Ivete coloca a mão sobre a mesa, o Governador pega um martelo e com a fúria de Thor dá uma martelada na mão dela e quebra todos os ossos; aí Ivete entra com a mão toda quebrada, puxa a faixa, e é a primeira pessoa a ficar internada no leito hospitalar! Pronto! O hospital estava inaugurado por Ivete!

Essa foi a lógica que encontrei em um artista inaugurar um hospital: ficando internado nele! Mas não foi assim que aconteceu. Ivete recebeu os R$ 650.000 – REPITO: DINHEIRO PÚBLICO – para cantar na inauguração de um hospital. Sou radicalmente contra a promoção de shows por parte do Poder Público, apesar de reconhecer essa “cultura” que eu prefiro chamar de péssimo hábito. Não pretendo aqui afastar a responsabilidade do Governador do Ceará que promoveu essa esbórnia. Ele é o principal e maior culpado. Mas como fica a responsabilidade do artista nisso?

Nós costumamos levantar todo tipo de acusação contra gestores públicos, com absoluta razão, mas por vezes fechamos os olhos à responsabilidade de outras pessoas públicas fora do meio político, que são tão responsáveis quanto os primeiros. Aceitar mais de meio milhão de reais de dinheiro público para fazer um show desnecessário na inauguração de um hospital, num país de saúde precária, é correto? A sensação que tenho é que muitos artistas não têm absolutamente nenhum critério sobre os trabalhos que vão aceitar, contanto que o cachê esteja pago.

Como vocês devem ter acompanhado pelos jornais, apenas um mês após o fatídico show inaugural, a fachada do hospital desabou! Aí, meu amigo, foi poeira… levantou poeira e feriu duas pessoas… e como estamos falando do cômico estado do Ceará, uma piada pronta: apesar de terem se ferido NO HOSPITAL, as pessoas machucadas foram atendidas EM OUTRO HOSPITAL, porque o recém inaugurado Hospital Ivet… digo Regional Norte, não tinha condições de atendê-los.

Falta medicamento, falta material hospitalar, faltam profissionais, falta estrutura… Mas o cachê da cantora está pago. Na minha visão, pela sua absoluta falta de critério, Ivete Sangalo é corresponsável por essa situação. Depois disso, faltar-lhe-á envergadura moral para criticar qualquer político, pois ela se banhou na gordura do dinheiro público jogado pelo ralo.

E que isso tem a ver comigo e com você? Tenho certeza que se Ivete Sangalo aparecer na TV falando mal de algum político você aplaudirá e se regozijará com a sua cantora preferida. Mas, como você agora sabe dessa história, por favor, não aplauda, pois ela é parte dos que se beneficiam com a irresponsabilidade dos péssimos gestores públicos. Segundo, peço que reflitam sobre a sua própria postura com relação ao Poder Público. Ao mesmo tempo que você se revolta com fatos como esse, você também incentiva o cano-ladrão, ao exigir que o Prefeito da sua cidade faça sempre “O Maior e Melhor São João do Mundo” (Caruaru e Campina Grande), ou até mesmo “O Maior Carnaval do Mundo” (Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador)… E você não aceita nada menos que isso! VOCÊ TAMBÉM É CULPADO!

Você não se importa se a merenda da escola pública da sua cidade seja de péssima qualidade, desde que Aviões do Forró seja contratado para o São João! Você não se importa se faltam médicos nas unidades de saúde, desde que Claudia Leite seja contratada para o carnaval fora de época da sua cidade!

Se você não se encaixa nesse perfil, meus parabéns. Você é a minoria. Tivemos excelentes exemplos neste ano, em que muitos prefeitos não realizaram carnavais tradicionais em razão da situação financeira em que seus municípios se encontravam. Cabe a nós aplaudir. Que o que aconteceu o Hospital Regional Norte no Ceará não se repita, e que novos prefeitos deem exemplos, não pagando um centavo com dinheiro público com shows comerciais enquanto tivermos crianças fora da escola e hospitais sem médicos. E acorde para a SUA responsabilidade, em apoiar gestores que pensam desta forma. A minha sorte grande é que eu não vou me tratar nesse hospital. E me parece que a única droga que tem lá é Dalila…

*Bernardo Filho é advogado


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro