1 de julho de 2013 às 09h23min - Por Mário Flávio

Usando a lenda grega do Fio de Ariadne podemos traçar vários paralelos sobre a superação da atual crise política, consequência direta da Revolução dos R$ 0,20. Diz o mito que, na ilha de Creta existia um labirinto do qual era impossível sair, habitado por um monstro, meio homem e meio touro, o Minotauro, que devorava todos que lá entravam. O herói grego Teseu assumiu a missão de eliminar o monstro, para isso além de armar-se de coragem, ele usou um novelo, dado a ele pela princesa Ariadne. Teseu desenrolava o novelo ao avançar pelo labirinto, para que depois de cumprir a sua missão, ele voltasse sã e salvo.
Tal qual Teseu, estamos perdidos entre as inúmeras possibilidades existentes para dar uma reposta eficaz aos protestos.

Articulado via redes sociais os movimentos das ruas, expuseram claramente o problema; a falência das nossas instituições e do nosso modelo de representação política. Porém a questão que se impõem é o que fazer para que os protestos não voltem para o facebook, ou para que a montanha não dê a luz a um rato? Como nos desvencilhar dos becos sem saída?
Várias soluções para a nossa crise institucional, de matizes diferentes brotaram tanto na imprensa, como nas redes sociais, as mais diversas possíveis. Algumas pediam: novas eleições, renúncia coletiva nos três poderes, outras a interdição dos atuais políticos nas próximas eleições. Ou a pior de todas, à eleição de um salvador da pátria que passaria o país a limpo, tendo esse papel desempenhado pelo Presidente do STF, Joaquim Barbosa.
Essas ideias refletem bem um vício histórico nosso, semelhante ao mito de Dom Sebastião em Portugal. Esperamos pelo herói solitário, que irá salvar o Brasil. O homem acima de qualquer suspeita, o enviado celeste que nos vingará dos desmandos, punirá os corruptos e nos colocará no Primeiro Mundo.

Foi assim em 1930 com Vargas, no Golpe de 1964, na redemocratização com Tancredo Neves ou nos inúmeros movimentos que ganharam as ruas do país, como: As Diretas, o Fora Collor, a CPI dos Anões do Orçamento, o Julgamento do Mensalão e agora na Revolta dos 0,20. Tais eventos históricos geraram manchetes em letras garrafais. Nesses momentos o país estaria sendo passado a limpo ou uma faxina estaria em curso, seria o momento de resetar e reiniciar o Brasil. Porém além das manchetes pouco, ou quase nada, efetivamente mudou.
Uma das coisas a nosso favor agora, é que nós temos o nosso Fio de Ariadne a nos guiar. Sendo bem simples encontrar a solução do impasse em questão, que seria o fortalecimento das nossas instituições sociais e a despersonalização da nossa vida política.

Há um descompasso evidente entre a população e as instituições, todas elas: o executivo, o legislativo e o judiciário, e em todos os níveis. Já que as mesmas não foram forjadas pelos anseios e conflitos sociais, mas surgiram antes mesmos de existir uma sociedade no país. Portugal as criou embrionariamente ao formar o Governo Geral em 1548, para resguardar o status quo e não os interesses coletivos. As instituições nesses 500 anos foram aperfeiçoadas, mas esse descolamento nunca foi superado. Elas não nos prestam contas de seus atos, não reconhecem que a sua legitimidade e poder emanam do povo, e nós não confiamos que elas realmente zelam pelo bem estar social.

O nosso Fio seria o Plebiscito, pois nesses quase 30 anos da reforma política nunca foi realizada, tanto pelo PT como PSDB, pois infelizmente a grande maioria dos políticos está mais preocupada em se reeleger do que em reformar o sistema. Através do plebiscito a população dirá o modelo que deseja para eleger os seus representantes. Elaborará um sistema que será realmente moldado pela sociedade, onde poderemos acabar com as coligações espúrias, o quociente eleitoral e os donos de legendas. Fortalecendo os partidos e seus programas, despersonalizando a política e provocando a sua renovação.

E não adianta dizer que estamos flertando com o bolivarismo venezuelano, com o plebiscito, agindo a lá Hugo Chaves. Os EUA e a Suíça recorrem periodicamente a esse instrumento, quando não há consenso político em torno de questões polêmicas. Nesses casos os impasses são superados pelo povo através do voto popular. Junto com as eleições, a população delibera sobre pontos vitais: aborto, pena de morte, eutanásia, imigração ou legalização da maconha.
Já tentamos vários atalhos ao longo de nossa história para acelerar as reformas e consolidarmos uma sociedade mais justa, apostamos em regimes de exceção, como o Estado Novo e a Ditadura Militar.

Está na hora de tentarmos as reformas pela via democrática, abandonando a ilusão do justiceiro e fortalecendo as instituições políticas, pois a construção de uma democracia plena nunca será obra de apenas um homem, mas sim de todos nós. Afinal o todo é superior às partes, e a sociedade é maior que um único indivíduo.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro