3 de julho de 2012 às 12h44min - Por Mário Flávio

Há um texto do sociólogo Immanuel Wallerstein em que ele trabalha a ideia da crise dos sistemas democráticos, crise essa que seria caracterizada pelo alto índice de abstenções. Nos países em que o voto não é obrigatório, mas também pela ausência da sociedade nos debates políticos partidários, evidenciando que cada vez menos a política partidária consegue atrair a atenção e participação da sociedade.

Esse divórcio entre sociedade e a classe política é fruto de agendas díspares. A sociedade sabe que há uma enorme distância entre o que ela quer, o que é prometido nas campanhas e o que é realizado nos gabinetes. Há beleza das ideias fica restrita a imagens coreografadas por marqueteiros, embaladas em músicas de gostos duvidosos. Os embates políticos entre situação e oposição se resumem a: aparelhar a máquina, desqualificar as gestões anteriores (situação) e sabotar e inviabilizar a gestão (oposição).

Não se sentindo representada, a sociedade procura então, outros canais de participação, além da política partidária: ONGs, movimentos sociais, igrejas e outros. Envolvendo cada vez menos os cidadãos, lidando com uma apatia crescente, verifica-se que as eleições envolvem uma disputa tosca de currículos, onde votasse não no melhor candidato, mas naquele que seria o “melhor”, que faria o mal menor a cidade, ou ao país.

Esse processo é observado em maior ou menor escala em todas as sociedades democráticas, mas, também em Caruaru. Os dois grupos políticos que se apresentam ao embate possuem alto grau de rejeição. Miriam, por herdar a rejeição de Tony Gel e a percepção de que seu governo será a reedição dos oitos anos do seu marido, já que as pessoas que a apoiam são as mesmas que faziam parte da gestão do DEM. E serão as peças que ela usará para montar a sua equipe, um novo que já cheira a velho.

Já Zé Queiroz, enfrenta o desgaste de um governo que prometeu muito, que criou uma expectativa de transformação social e eficiência administrativa, mas que teve uma gestão engessada, pela montagem de um secretariado inoperante, que não colocou a máquina para funcionar, principalmente em áreas vitais. Que deixou um sentimento de descontrole, de falta de rumo, onde o governo não agia, mas sim reagiam as demandas que chegavam pela mídia. E amarga a perda do capital político que marcou as suas gestões anteriores e foi construída pela campanha de 2008, a da eficiência e da inovação.

Entretanto, apesar do exposto são essas as opções eleitorais postas à mesa em Caruaru, ou as urnas… Apesar do que foi dito são essas as nossas opções. Ambos cooptaram parcelas da classe política local, oferecendo espaço na máquina ou apoio nas campanhas, pelos segundos do horário eleitoral que cada partido detém. As coligações são, então, construídas não com ideias ou projetos, mas com interesses, nada republicanos.

Exemplo disso são os vereadores que passaram dois anos batendo nesses dois grupos e que ensaiaram repetidamente voo solo, alimentaram a ilusão de uma nova via em Caruaru, mas foram arrebanhados pelas duas engrenagens eleitorais, manchando suas trajetórias públicas. Pois o que ficou pra sociedade é que as críticas ao governo eram apenas para arrancar um espaço maior na mídia, jogo de cena.

Isso reflete na apatia que essa eleição vem apresentando, nesse clima morno, onde as pessoas dizem que não existe um candidato que empolgue e mobilize. Votarão porque é obrigatório, porque sua consciência manda, mas se guiarão pela percepção de qual candidato é o “menos ruim” para a cidade, o menos nocivo.
Independente de quem ganhe a eleição, de quem for vitorioso, já há uma grande derrotada, Caruaru. Que terá como prefeito não o melhor, o mais capacitado, mas sim aquele ou aquela que foi percebido como o mal menor.

*Mário Roberto é professor da UFPE


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro