21 de março de 2014 às 14h09min - Por Mário Flávio

Hoje, dia 21 de março de 2014, é o dia de refletirmos sobre a discriminação racial a nível internacional, nacional, estadual e municipal. Portanto, não poderíamos deixar em branco nossa reflexão, de forma breve, sobre esse processo a nível local. Desde 2011, começamos com o debate acerca do empoderamento dos negros e negras de nossa cidade. Confesso que identificar nas religiões de matriz africana o sujeito político para isso foi fácil. O processo de identificação e de discriminação que acometia esse grupo específico facilitou a identificação e a construção deste sujeito político. Neste sentido, os debates, seminários, encontros e ações planejadas em conjunto tiveram êxito e conseguimos realizar ações de cunho participativo com esse grupo específico. Identificamos, mobilizamos e visibilizamos as demandas e provocamos na sociedade caruaruense o debate em torno da luta e da resistência destes sujeitos com relação a nossa estrutura cultural e social existente.

Falávamos muito em promoção da igualdade racial, e isso começou a incomodar nossa equipe, no sentido de que a promoção da igualdade racial não se restringia a promoção do debate em torno das religiões de matriz africana e afrobrasileira. Claro que essas manifestações culturais e religiosas têm sua relação com nosso passado escravocrata e com nossa ancestralidade negra, e por tabela africana. Claro que sofreram perseguições, justamente, por serem ligadas as práticas dos escravos africanos. Que sempre foi identificada como religião de preto, apesar de que hoje o cenário tenha mudado, e ela esteja muito mais relacionada à religião de gays, pobres, prostitutas e de marginalizados sociais. Reforço que o processo de identificação foi o indicador que facilitou a construção deste sujeito político, mas promover a igualdade racial não se resume a luta pelo empoderamento das religiões de matriz africana e afrobrasileira. Requer uma ampliação do debate.

Vivemos em uma sociedade onde o racismo é sempre negado, mascarado e camuflado nas suas práticas e ações cotidianas. O mito de uma relação harmoniosa entre brancos e negros em nosso país ainda é bastante forte, ideia defendida pelo nosso nobre sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, na década de 40, de que vivíamos numa “democracia racial”, num processo de miscigenação que facilitou as relações raciais e construiu uma nação sem o ranço racial americano segregador. Essa ideia ainda hoje organiza nosso entendimento de que os negros no Brasil, em Pernambuco e em Caruaru vivem muito bem sua identidade, suas relações de trabalho, educacional, de saúde, tem sua imagem veiculada de forma plena e não estigmatizada. Pensar o contrário é coisa de quem quer pregar o ódio racial e desestabilizar essas relações harmoniosas existentes. Um dos nossos grandes problemas foi identificar os negros e negras organizados em nossa cidade. Se assumir negro ou negra e se organizar em torno desta pauta, não é fácil. É se assumir enquanto o que há de mais vil, feio, demoníaco, preguiçoso e sujo em nossa sociedade.

Os dados oficiais e as observações cotidianas mostram que em todos os níveis sociais, os negros e negras de nosso país se encontram em situação de inferioridade, desde o acesso aos bens sociais – saúde, educação, moradia, alimentação e segurança – até sua própria inserção em políticas públicas garantidas pelo Estado passam longe de demonstrar uma igualdade entre brancos e negros. A violência é uma prática de nossa sociedade para mantê-los em seu lugar. Os capitães do Mato são outros, os senhores de engenhos são outros. Os nossos negros e negras são herdeiros da estrutura escravocrata que os desumanizaram e quando “livres” os marginalizaram e negaram-lhes todos os direitos e garantias para sua reprodução social. O racismo que legitimou a escravidão se mantém até os dias de hoje, discriminando, inferiorizando, desumanizando, matando, “arrastando”, “sumindo”, negando-lhes desta maneira as condições mínimas de subsistência e de sua prole. Circulo vicioso de miséria que vem sendo denunciada e combatida pelos movimentos negros, por parte da sociedade civil esclarecida e pelo Estado brasileiro em todas as suas esferas, nacional, estadual e municipal.

Apesar dos avanços temos ainda muito para fazer e resistir contra essa estrutura social orientada pela prática discriminatória baseada na cor da pele. Em Caruaru, podemos dizer que fazer esse debate, ampliar as ações de visibilidade e de execução de políticas públicas e implantar o conselho de promoção da igualdade étnico-racial é um passo significativo no avanço da desconstrução da ideia de que vivemos em uma democracia racial onde negros e negras tem suas vidas e garantias sociais asseguradas. Afirmar o racismo e denunciar-lhe em todas as suas formas e ações cotidianas é nosso desafio no que se refere à promoção da igualdade racial.

*Aristóteles Veloso – Gerente de Direitos Humanos da Secretaria Especial da Mulher e Direitos Humanos


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro