19 de setembro de 2013 às 10h03min - Por Mário Flávio

Estamos pagando o preço, em todo o país, pela falta de planejamento em relação à mobilidade urbana. Enquanto nas principais cidades do mundo, desde o século XIX, se investe em transporte de massa, principalmente o metrô, no Brasil priorizou-se o transporte individual, avenidas foram construídas e estradas duplicadas, entronizando o carro como principal meio de deslocamento. Atualmente nas grandes, e até mesmo nas médias cidades, os congestionamentos são onipresentes. Infelizmente quando era possível construir essas plataformas de transportes coletivos sem ter que gastar tanto se desperdiçou a oportunidade, pois as cidades ainda não eram gigantescas e não seria necessário desapropriar grandes áreas; agora temos que arcar com os altos custos dessa negligência colossal.

Aqui em Caruaru, já estamos começando a passar por esses percalços há um bom tempo. Temos ruas estreitas, um crescimento acelerado do número de veículos, um transporte coletivo sem a infraestutura necessária, que desestimula o seu uso. Sofre-se no centro com os congestionamentos e na periferia com os enormes intervalos entre as viagens dos ônibus, ou até mesmo inexistência de linhas, a falta de cobertura. Para amenizar esses problemas, principalmente nos municípios de médio porte, o Governo Federal no segundo semestre do ano passado lançou um edital, para financiar obras de mobilidade. Caruaru inscreveu-se e foi selecionada, um fato que merece elogios à equipe que montou o projeto, pois com esses investimentos se redefinirá a circulação na cidade, bem como a sua expansão futura.

Entretanto a conquista desse aporte financeiro despertou uma reação desmedida, na oposição e em diversos setores sociais. Comportamento esse debitado, em grande parte, a série de erros cometidos pelo executivo municipal ao longo do processo. O primeiro, em nenhum momento foi explicitado que a construção do BRT era um financiamento. A Prefeitura omitiu, não sabemos se de forma intencional ou não, que os recursos conseguidos não eram um repasse e sim um financiamento. Efetivamente não interessa se é empréstimo ou investimento direto da União, o que interessa é que a obra saia.

Lembremos a frase proferida por Deng Xiao Ping, ao defender a abertura da economia chinesa ao capital internacional: “Não interessa a cor do gato, desde que ele cace o rato.” Porém o problema decorreu na forma como a Prefeitura divulgou o resultado da seleção. Que está era consequência direta do prestígio do seu grupo político, do trânsito livre pela Esplanada dos Ministérios. Fato que foi amplamente desmentido, pois foi apenas uma seleção normal. Se tivesse sido diferente colocaria o Governo Federal em maus lençóis, pois se estaria liberando um volume imenso de recursos baseados não em critérios técnicos, mas em consequência de acordos políticos. O que vai de encontro aos princípios que regem a administração pública.

O segundo erro foi o risco de endividamento, principalmente se nesse momento estamos com a Prefeitura em dificuldades de arcar com as despesas de custeio da máquina e de realizar investimentos. O contrato desse empréstimo irá inviabilizar a gestão, principalmente no futuro? Para sanar esse contratempo, bastaria apenas a divulgação da capacidade de endividamento do município, quanto já está comprometido e de qual será o impacto dessa linha de crédito nas contas públicas. Faltou apenas transparência, ela de novo, afinal depois dos problemas oriundos do cheque em branco dado tanto pela situação quanto pela oposição na Câmara, no começo do ano com o PCC da educação. Existe o receio, de mais uma vez, os vereadores se tornarem sócios dos erros da gestão, e compartilharem o desgaste. Para isso o remédio é a informação, clarificar finanças municipais, e assim não se terá motivos para não aprovar a contratação da linha de crédito.

E por último, a grave suspeita sobre a capacidade técnica do executivo municipal em administrar corretamente recursos de tal monta. Credibilidade essa, que foi arranhada pelo relatório da CGU, e por problemas em várias obras de pequeno porte tocadas pela Prefeitura. Temos problemas graves, na recuperação da Avenida Brasil e no Distrito Industrial, apresentando erros grotescos de engenharia, desperdiçando os recursos da cidade; e até hoje os culpados não foram responsabilizados. Se com essas pequenas obras ocorreram tantos problemas, teme-se que com as obras do BRT tenhamos o caos completo.
O receio é de que os recursos sejam mal administrados, com a aplicação do famoso asfalto sonrisal, e que além das parcelas a serem pagas a prefeitura também deixe para o seu sucessor uma coleção de buracos espalhados pela cidade.

Em resumo, o que mais se nota na cidade é que todo burburinho é decorrente do momento adverso porque passa a Gestão, desgastada por uma série de contratempos nos últimos meses. Estaria faltando assim lastro político, densidade, para unir a sociedade em torno de um projeto tão vital. O clima, em geral, é de que nesse caso, seja aplicada em Caruaru a universal Lei de Murphy: “Se algo simplesmente não pode dar errado, dará de qualquer forma, e dá pior maneira possível.”

*Mário Benning é analista político e professor


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro