18 de agosto de 2012 às 07h22min - Por Mário Flávio

Percebo que o filme já está terminando…

A cena do suposto funeral de Bruce é comovente e Gordon lê as últimas linhas de Um conto de duas cidades, de Dickens: “Esta é, sem dúvida, a melhor coisa que faço e que jamais fiz; este é, sem dúvida, o melhor descanso que terei e que jamais tive”.

Assim como o Cristo da Bíblia (Mateus 23:12) o sacrifício do Batman salvou a muitos. Minha memória volta ao filme e cenas muito fortes são repassadas.

Selina sussurrando para Bruce dançando num baile da elite: “Está vindo uma tempestade, sr. Wayne. É melhor que estejam preparados. Pois quando ela chegar, todos se perguntarão como acharam que poderiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto”.

A ilusão das telas parece-me tão próximo do que vivo. E exatamente neste momento em que os “poderosos” políticos andam lado a lado com o povo, nos guetos, feira-livre, sobe e desce das ruas apertadas nas caminhadas.

A cena de Bane, na Bolsa de Valores, me leva a refletir sobre a origem da riqueza do Wayne… fabricação de armas e especulação financeira.

Seria o Bruce um bom capitalista? Afinal ele mantém um orfanato.

A cena do vingativo levante populista no filme, aquela multidão sedenta pelo sangue dos ricos que os ignoraram e exploraram… Seriam os revolucionários fanáticos, brutas, sem respeito à vida humana?

Percebo o desejo por justiça social tanto quanto o medo do que realmente pode acontecer se a multidão assume o poder.

E os vilões? No filme anterior o Coringa clamava por uma anarquia mostrando a hipocrisia da civilização burguesa como tal, mas não sensibilizava a massa. Já Bane consegue mostrar o sistema de opressão e mobilizar o povo para um objetivo político. A estratégia é organizar os oprimidos para lutar por sua própria libertação.

O ódio é um elemento da luta. O que nos ergue acima e além das limitações naturais de nossas forças e nos transforma em frias máquinas de matar? Como um povo sem ódio derrotaria um inimigo brutal?

No mundo real vejo os atuais protestos antiglobalistas. O povo nas ruas, quebrando, queimando… a questão sócio-política os impulsionando à violência.

E o herói. Em “Batman Begins” ele é simplesmente uma figura clássica do vigilante urbano que pune os criminosos naquilo que a polícia não pode, ao mesmo tempo que também considera Batman uma ameaça ao seu monopólio do poder e uma testemunha da sua ineficácia.

O Cavaleiro das Trevas muda esse cenário. O inimigo do “cavaleiro das trevas” e o “cavaleiro branco”, o novo e agressivo promotor público, um tipo de vigilante oficial cuja batalha fanática contra o crime o conduz ao assassinato de pessoas inocentes e o destrói. “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” vai mais longe que isso. Agora tudo é permitido para defender o sistema quando estamos lidando não só com gângsteres malucos, mas com uma revolta popular.

De volta a vida real, as ruas de minha cidade, guardadas as devidas proporções, por vezes me trazem a memória o filme. Encarar meus dramas existenciais, minhas lutas expostas e as que vivo só para mim. As pessoas que amo, a dor dos que perambulam nas escuras e frias vielas pouco visitadas pelos milionários que ostentam o poder. Dores e amores que ora me têem como vilão e outros momentos como heroi.

Como Bruce, por vezes penso que a  máscara é só um simbolo… Como a Mulher Gato, olho para alguns que conheço que vivem sempre com tanto e deixam tão pouco para os outros…

Endurecido porém amando. Me quedo diante da grandeza real do Deus que sirvo. No “Cavaleiro das trevas” reencontro o Pai das Luzes (Tiago 1:17), que me conhece sem máscaras, me envolve em seus braços e revigora minhas forças para permanecer lutando por um mundo mais justo. E me dando sentido em viver.

*Paulo Nailson é dirigente político com atuação em movimentos sociais, Membro da Articulação Agreste do Fórum de Reforma Urbana (FERU-PE) e Articulador Social do MTST. Edita a publicação cristã Presentia. Foi dirigente no PT municipal por mais de 10 anos. Cursa Serviço Social.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro