2 de fevereiro de 2012 às 09h20min - Por Mário Flávio

O jornalista Almir Vilanova escreveu texto para a edição de novembro da Revista Conteúdo. A pedidos, iremos publicar o texto aqui no Blog. 

Para esta edição da revista Conteúdo pensei em falar sobre algumas construções que há pelo menos 30 anos vejo desaparecer das ruas de Caruaru – sob os argumentos sutis de que se trata dos caprichos do desenvolvimento. Ainda estava deixando a adolescência quando ouvi esta justificativa pela primeira vez. Uma das primeiras lembranças que tenho vem de um casarão branco, de esquina, próximo ao final da avenida Rio Branco, cuja lateral tomava um dos lados da estreita rua que desemboca na João Condé.

Dona Dodôra, minha mãe, dizia que um médico já fizera residência ali. Rente a calçada daquela casa de bela arquitetura saltava o cheiro úmido dos porões isolados por grades de ferro que não me deixavam ver o que havia lá dentro. O casarão que enchia os meus olhos era parte do roteiro que fazíamos ao apartamento em que o meu avô morava na Avenida Cleto Campelo.

Da janela de Seu Manoel Mendes – que no último dia 25 de setembro completaria seu centenário de nascimento – eu também enxergava as pequeninas casas que cercavam a estação ferroviária. Elas pareciam ainda menores quando comparadas com o prédio onde ficavam as plataformas de embarque e desembarque. Vi muitos trens deixarem a cidade carregando seus vagões, fossem eles de passageiros ou de carga. Ainda hoje, nos vários momentos em que passo pelas ruas em que estavam plantadas aquelas casas grandes ou pequenas, me pego pensando sobre quantas histórias existiram por dentro daqueles lares.

Guardo em mim as imagens dos desenhos das fachadas, das marquises, o contorno das portas e janelas. Triste foi constatar com o passar do tempo que uma a uma aquelas construções foram sendo destruídas. Em seus lugares foram erguidos edifícios, casas comerciais, estacionamentos. Isto sem falar no impiedoso desaparecimento dos sobrados da antiga Rua da Frente, atual 15 de Novembro – cujas lembranças estão impressas nas fotografias que guardo com carinho e nostalgia.

O curioso é que década após década, demolição após demolição, surgem sempre as mesmas desculpas: “a cidade está crescendo” ou ainda “o comércio é uma vocação de Caruaru”. Confesso que quando ouço argumentos desse tipo sempre me reporto as cidades que conseguiram preservar partes importantes de suas memórias arquitetônicas, como Curitiba, Ouro Preto, Salvador e até mesmo exemplos aqui de Pernambuco, como Triunfo e Olinda. Nestes lugares, sabemos, o progresso aprendeu a respeitar o passado, para no presente ajudar a contemporaneidade a caminhar para o futuro.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro