1 de abril de 2014 às 18h29min - Por Mário Flávio

“Parecia até uma piada, pois era um primeiro de abril. Só que não era. O ano era 1964. Começava ali o pior momento da história dessa nação – quando os filhos da Pátria tiveram seus direitos confiscados por um grupo de ditadores, militares e civis – “os agentes do Estado” – que achou que a liberdade de expressão, de vontade política – a própria democracia – era perigoso demais para a nação. Ficaram com medo de que as reformas prometidas pelo então presidente João Goulart dessem poder demais ao povo. E fizeram o que eles chamaram de “revolução”.
Exigiram a renúncia de Jango, ocuparam sedes dos partidos políticos, dos sindicatos, incendiaram a sede da UNE, perseguiram, prenderam, torturaram e até mataram quem ousava protestar e lutar pela liberdade de expressão.

Só nos primeiros meses, foram mais de 50 mil presos. Quantos mortos, ao todo, nem a Comissão Nacional da Verdade conseguiu levantar ainda. A política do Estado Militar, naquele horrendo Regime de Exceção, era muito simples: mandar prender, mandar desaparecer. E desapareceram aos milhares. Muitas famílias ainda não conseguiram enterrar condignamente seus mortos. Não sabem nem onde seus corpos foram jogados.

Fecho os meus olhos e vejo as imagens. Não faz tanto tempo assim. Em nome da ordem, aviltaram a Constituição, fecharam o Congresso, censuraram a imprensa, cassaram direitos políticos e até aos artistas quiseram emudecer. Quem não estava com eles, quem criticava, quem protestava, era considerado subversivo, portanto, elemento de alta periculosidade.

E assim foram mais de duas décadas de perseguição, de crueldade, de covardia, de vergonha mesmo para esta nação. As crianças, mesmo os jovens de hoje, ao decorarem os nomes nos livros de História do Brasil, não imaginam o que eles representaram para todos nós, que prezamos e defendemos a democracia.

Um dos maiores intelectuais do Século XX, o historiador inglês Eric Hobsbawn, em “A era dos extremos”, disse que aquela, como as outras ditaduras latino-americanas, foi a “era mais sombria de tortura e contraterror da história do Ocidente”.

Infelizmente, não temos como apagar essa triste memória, essa odiosa mancha, da história brasileira. Não temos como enxugar as lágrimas dos que ainda procuram pelos seus e nada encontram, nem mesmo fotografias. Mas podemos fazer justiça e estamos fazendo.

No dia 30 de outubro do ano passado, a Câmara Municipal de Caruaru teve a honra de devolver os diplomas – e fazer um resgate da dignidade política – a três vereadores, vítimas indefesas dos abutres da ditadura, que enxergaram neles um perigo para a Nação, só porque se negaram a calar, e continuaram a defender os direitos do povo. Salve, Severino Souza Pepeu! Salve, Chico do Leite! Salve, Manoel Messias!

Ditadura nunca mais!

*Leonardo Chaves é Vereador e presidente da Câmara Municipal de Caruaru


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro