15 de fevereiro de 2012 às 11h00min - Por Mário Flávio

Já estamos em fevereiro e o ano vai ganhando forma. Os brasileiros vão aos poucos retornando da praia para recomeçar a rotina diária de trabalho; as aulas estão recomeçando; o comércio volta a se movimentar e o barulho do trânsito urbano nos faz sentir saudades do som do mar. Mas uma coisa parece insistir em ficar ecoando em nossas cabeças. Nesse verão, como em muitos outros, tivemos um hit musical que tocou de modo quase ininterrupto nas rádios e tvs de todo país. A música “Ai se eu te pego” interpretada pelo cantor Michel Teló virou uma daquelas músicas que se espalham como um vírus e de repente todo o país estava cantando o seu refrão.

 

Na internet, o assunto migrou do campo musical para o da polêmica quando o ex-integrante do grupo Los Hermanos, Bruno Medina, escreveu uma carta aberta a Michel Teló com uma crítica sutil ao seu hit. Não houve uma resposta por parte do cantor dono do refrão mais cantado do Brasil, mas a iniciativa bastou para provocar uma onda de discussões a favor e contra a “onda do momento”.

 

O argumento de alguns era o de que deveríamos aplaudir e parabenizar o Teló por ter lançado uma música de sucesso internacional, enquanto outros criticavam o modo como a melodia, de letra fútil e pegajosa, rapidamente alcançou o topo das listas de músicas mais tocadas nas maiores rádios do país.

 

À parte a discussão sobre o mérito musical do artista o assunto serve para abordamos um tópico que aparece velado nessa questão. As críticas ao sucesso demonstram na verdade uma indignação que vai além do julgamento de a música ser merecedora ou não da estrondosa repercussão.

 

Letras fúteis, com apelo sexual e uma melodia pegajosa sempre fizeram sucesso e parecem que sempre vão fazer não somente no Brasil como ao redor do mundo (inclusive em países do primeiro mundo). A crítica correta, eque pode servir para uma discussão sadia, porém, deve ser voltada para a eleição de valores que estamos fazendo em nossa nação. Afinal, tanto a música como a futilidade, gostemos ou não, parecem fazer parte indissociável do lazer humano, o erro está em fazer disso um valor absoluto.

 

Criticar o sucesso legítimo de um compatriota não parece ser lá coisa muito útil de se fazer. Agora, criticar o que estamos ensinando nossas crianças a cantar e a aplaudir, isso sim pode e deve ser feito, já que é nosso dever refletirmos sobre o país que estamos construindo. Sempre que uma obra ou um artista alcança a pauta de discussões sociais, se torna popular ou ganha um forte interesse pela mídia, ela (a obra) ou ele (o artista) se torna referência,histórica e cultural, do caráter de valores de um povo. Sermos conhecidos como o país da música e do futebol até pode ser algo bom, o ruim é sermos conhecidos somente por isso.

 

Quando foi a última vez que elegemos um cientista, um professor ou um escritor como ídolo nacional? Quando foi que colocamos em pauta discussões sobre os altos valores de uma nação? Quando foi que provocamos uma onda de reflexão sobre mudanças políticas inadiáveis?

 

A crítica correta, portanto, não deve recair sobre o artista ou sobre sua obra, mas sobre nós mesmos, enquanto povo, e nossos critérios de eleição do que é importante. Se ensinarmos nossos filhos a rebolar axé desde cedo e a cantar “ai se eu te pego” enquanto ignoramos suas formações cívicase morais qual o país que devemos esperar em um futuro próximo? Se quisermos nos tornar uma nação de primeiro mundo podemos até festejar como tal, mas não podemos deixar de pensar como uma.

 

Como dito, letras fúteis e melodias pegajosas fazem parte do cenário musical de quase todo país, a diferença é se orgulhar de uma obra assim como sendo uma referência para uma nação inteira. Cantar futilidades em um país onde prêmios Nobelsão a verdadeira referência de sucesso é muito diferente de rebolar axé num país onde é carnaval o ano todo enquanto a miséria e a corrupção são a autêntica realidade social. É claro que o lazer e a alegria fazem parte da natureza humana mas é preciso aplaudir as coisas certas primeiro para dar às fúteis o seu devido valor.

Diego Cintra.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro