26 de abril de 2014 às 12h37min - Por Mário Flávio

Aquando da elaboração de um artigo científico sobre a obra Terra de Caruaru de José Condé, a ser publicado, no segundo semestre do ano corrente, numa revista de estudos literários, deparei-me com uma afirmação confessa do autor, no prefácio que fez à primeira edição desta obra, em 1960, sustentando que este seu romance não retrata nenhum pessoa viva ou morta, mas que “pretende ser o retrato de um tempo que não existe mais”. Contudo, os fatos ali arrolados, numa distante Caruaru entre o final do século XIX e começo do XX, evocam várias problemáticas que envolvem ainda hoje o cenário político e cultural caruaruense, e por isso me senti tentado a escrever este curtíssimo ensaio – apesar de, há quase uma década, estar distante desta cidade, que não corta o cordão umbilical com seus filhos, como aditou Anastácio Rodrigues – como apoio e homenagem à causa dos professores grevistas do município.

Terra de Caruaru de José Condé narra, em sua essência, a disputa pelo poder, baseada em formas repressivas, contraditórias, e historicamente validadas por figuras, geralmente de políticos, coronéis e delegados, que instituem, efetivamente, através dos seus cargos, várias formas de controle e de poder. Esse “poder instituído” pode ser observado, na obra condeana, dentro de várias relações entre as personagens principais e secundárias, numa troca de favores e conchavos que procura, sobretudo, satisfazer o bel-prazer individual, esquecendo-se, muitas vezes, de favorecer o coletivo. Tais relações também demonstram, a nível discursivo, a falta de diálogo entre as personagens que detêm esse poder, visto que suas frases são, geralmente, curtas e diretas, imprimindo uma mensagem enfática aos seus interlocutores – como um veredito que não deve ser questionado, validando e reconhecendo quem reprime ou intimida mais o outro.

Ou seja, trazendo o exemplo literário para atualidade: de um lado, temos a Prefeitura de Caruaru (isto também quadra aos outros prefeitos que comandaram a cidade), e do outro, os professores, que há décadas lutam por melhorias no ensino e no reconhecimento de uma profissão de suma importância para o desenvolvimento da nossa cidade. Lembremos: o nosso romancista muito bem expressou na sua obra a importância, para a cidade, da formação adequada dos filhos da terra – por exemplo, na passagem do diálogo entre Teotônio e Antônio, que relata a necessidade de enviar os filhos para estudar na capital, tendo em conta que a cidade de Caruaru não ofereceria condições de estudo nem de formação de profissionais que viessem ajudar na melhoria da condição de vida dos seus habitantes: “O que a cidade for no futuro, terá sido consequência do trabalho que estão fazendo hoje os homens de minha idade; porque ganham dinheiro com algodão e mandam os meninos como você estudar fora” (p.128).

Contudo, observa-se que o discurso do movimento grevista dos professores dessa vez não apenas discute e reivindica um aumento salarial, mas algo muito mais profundo e problemático: um Plano de Cargos Carreira (PCC) dos professores, que foi aprovado quase na “calada da noite”, numa sessão extraordinária ocorrida a 31 de janeiro de 2013, a qual, certamente, não chamaria a atenção das partes envolvidas, já que muitos estariam ainda num período de férias letivas ou voltando delas.

Nessa reunião foi aprovado, por uma Câmara (na qual alguns vereadores foram afastados dos seus cargos, acusados de corrupção, por cobrarem propinas, permanecendo outros ainda sob investigação em 2014, e mesmo assim ainda recebendo os seus vencimentos), o projeto – que um deles confessou abertamente não ter lido (ver site: https://blogdomarioflavio.com.br/vs3/tag/pcc/page/6/ ) – de um texto que tenta acabar com qualquer tipo de formação e incentivo para a carreira dos docentes caruaruenses. E antes que me digam que eu não li esse PCC e que não sou especialista em pedagogia – claro, meu campo de investigação é o dos estudos literários, mas não é preciso ser nenhum expert para perceber que se passa algo de errado – professores gabaritados no assunto, como Tânia Bazante e Arnaldo Dantas (ver site: http://www.sismucregional.com.br/lernoticia.asp?idn=365), proferiram alocuções, num seminário aberto ao público, no dia 21 de março, explicando detalhadamente como esse PCC vem desonestamente e escabrosamente interferir na carreira de docente na cidade de Caruaru.

Se de um lado encontramos um prefeito e uma secretaria de educação que fundamentam o seu discurso numa relação autoritária, afirmando a supremacia de suas palavras e de seu poder – posicionamento reafirmado a tal modo que validaria, por exemplo, a falta de representante por parte da secretaria de educação de Caruaru em uma reunião com o Ministério Público da cidade, recusa essa que demonstra falta de traquejo para repensar certas atitudes –, por outro lado, encontramos um corpo docente grevista que procura, dentro de um discurso alteritário, formas de dialogar com aqueles que insistem em que o seu poder é instituído e o único válido.

A atitude da prefeitura me lembra uma personagem condeana, Ariosto Ribas, cujo momentâneo poder político de controle sobre a Caruaru retratada por Condé o faz acreditar na sua supremacia ditatorial. Ainda bem que os tempos vêm mudando! Isto quer dizer que o que se discute nesta greve é algo mais do que um aumento salarial – trata-se das formas arbitrárias como literalmente tentam acabar com a carreira do profissional em educação e do descaso, como dizem os blogs e jornais da cidade, das escolas em péssimas condições materiais e indignas de trabalho.
Voltando ao meu campo de pesquisa, os estudos literários: Terra de Caruaru de Zé Condé retrata uma cidade que necessita se desenvolver, visto que ainda é tratada pelos que ali comandam como “terra”, quase que como uma disputa de sesmaria, e não como cidade.

Entretanto, passadas décadas, muita coisa mudou, independentemente dos partidos políticos ou governantes que aqui estiveram. No entanto, os que aqui atualmente governam parecem não se aperceber que sem a procura de destituição de formas de poder baseadas em antigos preconceitos, e sem investimento maciço em educação (formação dos profissionais, progressão na carreira, salários condignos, melhoramento e ampliação de espaço físico, etc.), a cidade nunca se desenvolverá plenamente. Entendo que a reivindicação dos professores grevistas se baseia em fundamentos coesos e incisivos, não apenas visando a atual condição dos profissionais em educação, mas também defendendo os futuros educadores. Lutando por esse direito, esses professores realmente parecem viver uma frase emblemática da obra Terra de Caruaru, por haver em seus discursos algo muito maior do que a busca por condições financeiras e dignas: por se assumirem cidadãos conscientes do seu dever como caruaruenses. Por isso, creio que esses profissionais comungam com Condé a seguinte sentença sobre a cidade de Caruaru, mesmo em meio a tantas injustiças: “Amo-a mesmo nos seus defeitos, que é a maneira mais acertada de amar” (p.88). É justamente por amar Caruaru que a luta de vocês se faz presente.

Lisboa, 7 de abril de 2014

*Professor Doutor Fabio Mario da Silva
Pós-doutorando da Universidade de São Paulo
Pesquisador do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) e do Centro de Estudos Clássicos (CEC) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, do Centro Internacional e Multidisciplinar de Estudos Épicos (CIMEEP) da Universidade Federal de Sergipe e do CNPq.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro