20 de junho de 2013 às 18h54min - Por Mário Flávio

Após as primeiras manifestações que eclodiram em São Paulo na semana passada e tomaram o país de assalto, com várias capitais e cidades médias realizando movimentos semelhantes. Em alguns lugares minorias provocaram cenas de conflito urbano, mas na maioria das cidades os mesmos foram pacíficos. A eclosão desse conflito pegou de surpresa os governantes, em todos os níveis, os partidos políticos e até mesmo lideranças dos movimentos sociais, batizado de Revolução do Vinagre pelo jornal El País, da Espanha. Afinal foi a primeira vez que uma mobilização marcada pelas redes sociais realmente ganhou as ruas, um ativismo virtual que se tornou real.

Como as manifestações ocorreram em cidades e estados administrados tanto pelo PT e seus aliados, como pelo PSDB, nenhum deles pode se apropriar, até o momento, dos protestos, embora tenham tentado. E diga-se de passagem que ambos os partidos deram a sua contribuição para o acirramento dos protestos ao aumentarem a passagem e se negarem a negociar com os manifestantes e defenderem a os excessos do PM em São Paulo.

As causas desses movimentos são bastante conhecidas, afinal ocorreram protestos semelhantes nos EUA, Europa e nos países da Primavera Árabe, o que muda são os detonadores e os objetivos. O que há de comum nesses movimentos é o esvaziamento do atual modelo de representação política, uma crise mundial mais evidente nas democracias ocidentais. Pois no esteio da queda do socialismo amargamos o fim das ideologias provocando uma pasteurização e homogeneização da política.
Hoje, infelizmente, não temos projetos políticos distintos, temos grupos rivais, que apelando para o marketing criam expectativas gigantes na população, mas que ao assumiram cedem ao lobby dos financiadores das campanhas e a outros conchavos. Os partidos se sucedem no poder, prometem o futuro e são incapazes de efetivar transformações no presente.

A população sente que seus anseios são relegados, as insatisfações se avolumam e um pequeno ato, uma pequena gota faz o copo transbordar. Foi assim nos EUA, por conta da especulação financeira que provocou crise financeira e desemprego em 2008. Na Europa com os Indignados da Espanha ou o movimento Cinco Estrelas da Itália, lutando contra a ascendência do lucro e da austeridade sobre o emprego e direitos sociais. Porém após as comportas cederem, juntam-se vários anseios num grande caudal, aglutinando interesses e atores sociais diversos, que aproveitam esse momento de catarse para discutir as relações com os governantes.

No caso específico do Brasil, a já chamada Revolução do Vinagre, foi motivada pelo olvide das necessidades básica do cidadão. Mesmo com a ascensão de milhões à classe média, as pessoas que agora tem o básico, querem também qualidade nos serviços públicos. Esses movimentos crescem e por gravidade vão atraindo outras insatisfações, as mais diversas possíveis. Como segurança, meio ambiente, justiça social, mobilidade e vão agregando outras pautas, como: novas práticas políticas, protestos contra a PEC 37 e contra e a favor do PT e PSDB. Um verdadeiro saco de gatos contemporâneo, ou usando o termo da moda pós-moderno.
Por ser um movimento difuso não tem lideranças, vimos isso quando os PM e os Governadores procuraram alguém para conversar, para negociar, há um hiato nesse sentindo. Temos pais de família, idosos, jovens secundaristas e universitários e outros tantos segmentos sociais, com motivações individuais diversas, mas unidos pelo senso da história, do momento importante que estamos passando.

Infelizmente há uma minoria ultrarradical, que está interessada mais em ver o circo pegar fogo, do que com a temática em curso, e que com suas ações terminam por desacreditar os protestos. Também participam um outro grupo bem interessante, o, a famosa geração coca cola ou danoninho, que está indo pra rua, porque acha Cult protestar. Desejando encarnar o herói revolucionário do filme V de Vingança, que acha que lutar pelo país é repetir algumas palavras de ordem e postar frases de efeito nas redes sociais. Esses serão os primeiros a sair das ruas, abandonarão a máscara quando acharem que as manifestações estão fora dos trendings topics do twitter.

Mas não são esses grupos que desmerecem os atos públicos, afinal eles, os protestos, são sintomas de problemas latentes postergados e anestesiados ao longo das décadas, por vários políticos e partidos. O x da questão no momento é o que vai ficar dessas gigantescas mobilizações?
Não sabemos, pois infelizmente em vários países do mundo pouca coisa ou até mesmo nada mudou. Nos EUA o bipartidarismo que engessa o país continua intacto, na Espanha foi eleito um Primeiro Ministro conservador que segue fielmente a cartilha da austeridade radical. Na Itália mesmo com o movimento Cinco Estrelas tento 20% dos votos, uma coalização de direita montou um governo de coalização e está implantando a política do arrocho no país.

O mais grave ocorreu nos países árabes, onde estudantes, movimentos feministas e lideranças religiosas se uniram para derrotar as ditaduras na: Tunísia, Egito e Líbia. Estavam untos protestando por liberdade, democracia e justiça social, porém após a queda dos regimes o fundamentalismo islâmico vem gradativamente excluindo os outros segmentos e está contínua e paulatinamente assumindo o poder nesses países; impondo políticas sexistas autoritárias e fundamentalistas.

Se nós queremos ter um destino diferente desses movimentos não pode apenas ocupar espaço nas ruas, ter apenas horizontalidade, produzindo só volume e ruídos. Mas temos que a aprofundar seriamente as questões nacionais e dar um foco e estruturar o movimento. Buscando dar profundidade, verticalidade, aos seus pleitos e continuidade as suas ações, pois senão será igual ao cão que persegue um carro e um dia consegue pega-lo, mas não sabe o que fazer com ele. Mas mesmo com todos esses senões, as manifestações são um ótimo prefácio desse Brasil que nós queremos escrever juntos.

*Mário Benning é analista político


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro