27 de agosto de 2013 às 10h25min - Por Mário Flávio

O que poderíamos dizer do século XXI? O que poderíamos aguardar deste século? Já estamos na segunda década e os grandes desafios ainda continuam, questões como diálogo, respeito, sustentabilidade, direitos humanos, liberdade de expressão, democracia, inclusão e outras garantias fundamentais ainda não se consolidaram pelo mundo. Em continentes como a África, muitos desses quesitos nem sequer existem e em países da América Latina, hora ou outra temos alguns destes quesitos ameaçados pelas correntes golpistas, e as ideologias ultrapassadas.

Historiadores como Hobsbawn descreveram o século passado como o “século dos extremos”, mas o que poderíamos dizer deste século presente? Os desafios se mantêm, os conflitos ainda se afloram, as profundas diferenças socioeconômicas e político-tecnológicas ainda permanecem. Milhões ainda passam fome pelo globo terrestre. Não podemos deixar de mencionar o fator globalização. O que poderíamos dizer deste século? Seria o “século das tensões”, dadas as proporções, por exemplo, de lutas como a autoafirmação das minorias, sejam tradicionais ou alternativas, do desejo das políticas sustentáveis e da valorização da educação e de seus profissionais?

No primeiro exemplo a tensão e o alvoroço seja dos conservadores que não aceitam as novas mudanças de gênero e no segundo caso, dos ruralistas e donos de terras que não enxergam a consciência ambiental dos cidadãos; o terceiro caso, no qual estou inserido junto a muitos colegas.A tensão que dura décadas produzida pela mesquinhez dos que constroem as políticas de Estado, em seus diferentes níveis e da insensibilidade de gestores com a necessidade de alçar ao Brasil uma educação que não só tenha qualidade, mas dê condições aos educadores de não viverem de pouco dinheiro e muito trabalho.

Na política internacional ou brasileira, o século passado expressou seus extremos, fez eclodir tensões entre as correntes de Direita e Esquerda, dos modelos capitalista e socialista. Inúmeras foram as tentativas de um capitalismo “menos selvagem” e de um “socialismo democrático”, depois de meio século de autoritarismos, das ditaduras de direita, das políticas liberais improvisadas, da supressão de direitos, da instalação de repúblicas comunistas no leste europeu. Todas elas sob o cunho de Moscou, até nas terras ibero-americanas tivemos exemplos de extremos, como o caso de Cuba que levou aos seus “paredões” não só opositores, mas pobres e homossexuais.

Há uma pergunta prática que devemos fazer a nós mesmos: em nosso tempo existe espaço para extremos, para as ideologias ultrapassadas que tanto marcaram o século XX e produziram tantas mortes, impediram à consolidação de processos democráticos e na práxis se mostraram um pesadelo e não um sonho? Eu acredito que não, e muitos outros expressaram esta certeza O filosofo espanhol José Ortega y Gasset, costumava dizer: “Ser de laizquierda es, como ser de laderecha, una de las infinitas maneras que elhombrepuedeelegir para ser unimbécil”.

Se os “extremos” ainda persistem, persistência maior no presente tem as tensões, alternativa lógica, pois apresenta-se aos nossos olhos a necessidade de diálogo, neutralidade e abertura. Costumo dizer que abraçar uma postura de Centro ultrapassa a perspectiva de estar atento a um ou outro grupo, mas disposto, sensível, aberto ao público no seu sentido original. Em minha humilde opinião é muito mais virtuoso e honesto se declarar um centrista e pautar-se pelos princípios da alteridade, diálogo, abertura, disposição e da superação dos “extremos” do que se assumir a esquerda e possuir práticas de direita e vice-versa, exemplos em todos os lugares não faltam.

Como poderemos então contribuir para a construção de uma nova cultura política? Este questionamento é importante para entendermos o título do artigo.Lembro-me inicialmente de um exercício cristão muito útil, trata-se do pedido de “Despojando-se do velho homem” (Ef 4,22). Fazendo alusão ao “despojar-se”, podemos dizer que é necessidade de nossos dias, da vida em sociedade o exercício do abandono dos preconceitos, e como consequência a construção de uma nova cultura social, educacional, humanitária, política e econômica. Mas especificamente no campo político, é mais que uma necessidade; é obrigação dos homens e mulheres públicos o exercício do abandono das velhas práticas autoritárias, da falta de diálogo, da falta de ética, das velhas ideologias e dos egoísmos.

Estudiosos, professores, intelectuais apontam o problema da falta de ideologia na política brasileira, da clareza dos lados; mas há outro quesito importante que passa desapercebido dos analistas: a tentativa de um numero cada vez maior de cidadãos, políticos e militantes de se pautar pelo diálogo e nutrir uma postura de Centro na esperança de superar os “extremismos” e contribuir para a construção de uma nova cultura de respeito, comprometimento e responsabilidade política.

O maior problema que se apresenta para muitos, talvez, não seja conceituar os lados de uma mesma moeda, mas a identificação das demandas de nossos dias, e da vocação que se apresenta ao nosso século. Vocação que deve ser correspondida pelas novas gerações de homens e mulheres desejosos por uma nova cultura política.

*John Silva – Professor de História, cristão, militante político, líder comunitário e estudantil.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro