4 de agosto de 2013 às 08h25min - Por Mário Flávio

Cervantes falava, há muito tempo, de um rapaz que, de tanto viver no mundo da imaginação, perdeu completamente a relação com a realidade. Esse personagem, fidalgo chamado Quixote, gostava de montar em seu corcel – o Rocinante -, um cavalo velho e magro, que mais estava para descanso do que para aventuras. Seu delírio (do fidalgo, claro) fazia com que ele perdesse completamente a capacidade de enxergar o mundo a sua volta, de enxergar a realidade da vida, os novos desafios, transformações e dificuldades por que passava a sociedade, chagando ao cúmulo de confundir moinhos de vento com gigantes a serem combatidos.

Essa história me veio à mente por ocasião de uma notícia lida hoje de tarde. Todos sabem de minha devoção pela literatura e da minha recente, no mínimo, desconfiança para com o poder legislativo. A falta de raciocínio e de ação independente, a muitas vezes inoperância mesmo, os flagrantes de descomprometimento com a coisa pública, tudo isso tem gerado desencanto. Na notícia a que me referi, que puxou a literatura e provocou esse texto, um blogueiro político publicava que um dos vereadores da cidade de Caruaru irá apresentar – se já não apresentou – um requerimento para a Prefeitura financiar aulas de hipismo para pessoas pobres, aproveitando a construção de um novo parque na cidade para a prática deste esporte.

Antes que os maliciosos invertam meu argumento, dizendo que sou contra a felicidade da camada socialmente menos favorecida, afirmo logo que não tenho nada contra o hipismo, nem contra qualquer esporte de rico. Pelo contrário, quero também ver os/as jovens, pobres ou ricos/as, jogando tênis nas calçadas das casas, fazendo sextas nos garrafões das praças da cidade, jogando golf em um campo paralelo ao de futebol. Entretanto acho escandaloso que os cidadãos, não somente os membros do legislativo, tenham chegado a um nível de incompreensão do momento político no espaço em que vivem a ponto de cogitar algo desse tipo.

Caruaru tem um dos maiores déficits de creches da região, não construiu escolas para suprir a demanda por vagas no Ensino Fundamental (fato que vem se agravando com a municipalização da rede estadual de ensino) e no Médio (a Escola Cristina Tavares, na Vila Padre Inácio, está ou pelo menos estava patrocinando Rodízio de salas por turmas: uma turma assiste aula, a outra fica esperando em casa ou na porta da sala a sua vez), e apresenta uma das estruturas dos bairros de periferia mais desumanas que já se viu – a maioria sem iluminação, com esgotos a céu aberto, onde crianças brincam descalças com uma bola dente-de-leite furada.

Como se não bastasse, o executivo preparou e a câmara aprovou, sem sequer ler, uma Lei de Plano de Cargos e Carreiras que esmagou os direitos dos profissionais da educação e jogou a autoestima dos professores e professoras na sarjeta e se não fosse a força de espírito dessas pessoas, estariam também caladas. Enquanto isso, no alto da tribuna alguém fala, gesticula, muitas vezes esbraveja, mas só se ouve o silêncio.

Ergo a cabeça, olho para o nosso horizonte e, sinceramente, não vejo compromisso público no caso do hipódromo. Para mim, a corrida de cavalos é o símbolo da importância do legislativo na nossa política. Desse modo, comecemos a construir as baias e distribuir selas. Só faltam os rocinantes – animais magníficos, pela força, exuberância, inteligência, desmerecedores de comparação –, que são caros, para podermos botar os cabrestos.

*Armando Melo é professor e advogado


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro