3 de agosto de 2012 às 08h30min - Por Mário Flávio

Ao longo de sua história recente, Caruaru tem sido refém de uma bipolarização política que gestou dois efeitos particularmente nefastos na evolução do processo democrático no município: primeiro, a criação de uma cultura política maniqueísta, impondo ao eleitor um resignado dualismo, que pretende circunscrever a realidade a uma fantasiosa visão de “bem versus mal”; segundo (e como consequência direta do primeiro), a mutilação de um debate que deveria ser, por natureza, plúrimo e multifacetado, coibindo a emergência de novas agendas políticas e sonegando à sociedade a oportunidade de uma renovação de ideias e práticas na administração pública.

As tentativas de construir uma terceira via, no município, não passaram até agora de balões de ensaio anódinos, tão desprovidos de pano de fundo ideológico que, em vez de contribuírem para dinamizar e enriquecer o debate, terminaram por fortalecer ainda mais a cultura dualista predominante.

Na maior parte dos municípios brasileiros, à medida que o progresso vai se alastrando, esse tipo de concentração bilateral de poder tende a esmaecer e a conformação tradicional do quadro político cede naturalmente espaço ao surgimento de novas forças, novas tendências, trazendo oxigênio ao discurso político e descentralizando o debate, o que tem por efeito tornar o cidadão comum menos alienado e mais politizado, consequentemente, mais próximo do processo de decisão e condução das políticas públicas.

No entanto, nesse pormenor, Caruaru tem curiosamente caminhado em sentido contrário. O crescimento econômico e a assunção de uma posição de destaque no cenário estadual não vieram acompanhados pela necessária desconcentração do poder político. Ao invés, o que se tem visto historicamente é o recrudescimento do cenário de polarização, o que concorre sobremaneira para o empobrecimento político da sociedade.

Tomemos como exemplo Recife, provavelmente uma das cidades mais politizadas do Nordeste e quiçá do Brasil. Lá, a bipolarização e o domínio de famílias tradicionais foram há algum tempo debelados, o que permitiu a chegada de um homem do povo ao poder, em 2000, na célebre vitória de João Paulo sobre Roberto Magalhães. Em praticamente todas as últimas eleições, tivemos ali três ou mais candidatos competitivos. Este ano, o pleito em Recife apresenta quatro concorrentes que estão pontuando significativamente nas pesquisas.

Em Caruaru, a realidade eleitoral é bem diversa. Particularmente, é emblemática a postura do Partido dos Trabalhadores local. Ator político importante, agremiação de marcante cunho ideológico e um dos grandes responsáveis pela quebra de hegemonias políticas em muitos rincões deste país, o PT em Caruaru tem historicamente estado ao lado de uma hegemonia e de uma tradição política, esquivando-se de apresentar uma alternativa verdadeiramente socialista ao eleitorado, o que aparentemente vai de encontro à biografia do partido.

Talvez essa dificuldade local apenas corrobore as inúmeras contradições com as quais o PT nacional se depara desde que chegou ao poder. Entre aprofundar uma revolução social e política que ele mesmo iniciou e manter o status quo, o partido tem escolhido a segunda opção. Aliás, entre outras, essa é uma das razões pelas quais viu debandarem de suas trincheiras inúmeros nomes de peso e de irretorquível espírito público, a exemplo de Heloísa Helena, Marina Silva, Hélio Bicudo, Chico Alencar e Ivan Valente.

Nesse contexto, a candidatura do PSOL em Caruaru surge como forma de avivamento da democracia e como vetor de aspirações populares reprimidas. Ainda que se deva admitir que suas chances de êxito são parcas, ela possui uma gênese e uma simbologia que transcendem seus próprios objetivos eleitorais: num tempo em que a maior parte dos partidos pequenos viraram balcão de negócios e funcionam cartorialmente para atender interesses escusos, ela representa uma vitória da própria democracia no município e uma prova de que ainda é possível fazer política sem aderir ao pragmatismo rasteiro.

De quebra, consegue trazer para o banquete político um componente que outras tentativas de terceira via na cidade não haviam conseguido: o tempero ideológico. A ruptura do oligopólio político na cidade e a precipitação do fim de um ciclo histórico passam necessariamente pela quantidade de votos que o PSOL terá nessas eleições municipais. Ao final, no dia 7 de outubro, saberemos se a estrutura de aço da dominação política tradicional terá sido fendida ou se permanece intacta.

*Marchezan Albuquerque, Analista-Tributário da Receita Federal do Brasil


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro