21 de janeiro de 2013 às 08h25min - Por Mário Flávio

O instinto de sobrevivência da classe política dotou os nossos políticos da arte do esquivar, com os mesmos evitando ao máximo tratar de temas polêmicos que desagradem aos eleitores, postergando muitas vezes decisões necessárias, porém impopulares, que se manifestaram na queda dos índices de aprovação. Sendo assim adiasse o inevitável, e torce-se para que a bomba estoure no mandato do sucessor, atualmente várias bombas de efeito retardado estão prestes a eclodir ao longo da gestão de Queiroz, algumas plantadas por ele mesmo em suas gestões anteriores e outras heranças de outros prefeitos.

Um dos exemplos desse adiar ao infinito é a questão da sulanca, que cresceu e extravasou o espaço a ela destinado e está enclausurada numa área que não permite seu pleno funcionamento, desagradando clientes e feirantes e travando a circulação por toda da cidade, como vimos nas feiras de dezembro passado. Mudar a feira e moderniza-la é uma necessidade, porém o que tem de ser discutido é o tipo de mudança, de projeto que será implementado preservando ao máximo a feira como um espaço público e democrático.

É bom lembrar que a feira da sulanca surgiu praticamente à margem do poder público, principalmente como uma alternativa a escassez de empregos formais na região. Dessa origem humilde, porém, brotou uma atividade que dinamiza vários segmentos da economia caruaruense, já que praticamente todas as etapas da fabricação de roupas são feitas localmente e a renda obtida, em sua maioria, é reinvestida na própria cidade. Praticamente sem ações significativas dos governos federal, estadual e local, Caruaru conseguiu ao longo dos anos desenvolver uma economia de base local, o sonho de consumo dos economistas mundo afora, já que a aposta em grandes empresas mostrou-se incapaz de produzir os mesmos efeitos dessas economias de base local, pois as mesmas não consomem produtos da região, empregam pouca mão de obra e são isentas de impostos e abandonam a região quando os incentivos cessam, como no caso da Phillips em Pernambuco.

Se o polo de confecções do Agreste apresenta indicadores sociais superiores ao estadual e o regional, é consequência dessa atividade, pois, são inúmeros os casos de empreendedores que começaram produzindo e comercializando poucas peças ou alimentos na feira pública local e alcançaram o sucesso, garantindo assim ascensão social e a distribuição de renda. Preservar esses elementos deve ser o norte de qualquer projeto de requalificação da feira da sulanca, pois corremos o risco, ao adotar o modelo shopping, de privatizar a feira.

Na qual toda uma construção coletiva da sociedade caruaruense seria entregue nas mãos de uma minoria de investidores através das famosas PPP, deixando de ser um espaço público para ser controlada pela iniciativa privada. Aniquilando assim os efeitos da produção local e da mobilidade social e de provocando um retrocesso nos avanços duramente conquistados ao longo das décadas. Pois as melhores áreas, as que oferecerem a melhor circulação serão controladas pelos que dispõem de mais recursos, os pequenos produtores e comerciantes terão enormes dificuldades em escoar sua produção e lentamente serão excluídos do circuito. E quando as consequências negativas se tornarem evidentes aí já será tarde demais.

A feira deve sim mudar, mas às vezes nem toda mudança é positiva, principalmente se ocorrer à privatização da feira de Caruaru. Se não houver uma contrapartida social ou uma regulação rígida que preserve a essência da sulanca, que são: o domínio do poder público e a acessibilidade democrática a todos; corremos o risco da primeira grande intervenção do poder público no século XXI na feira da sulanca poderá ser mais prejudicial do que vantajosa ameaçando até mesmo a sua existência.

*Mário Benning é analista político


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro