2 de setembro de 2013 às 08h55min - Por Mário Flávio

Nos últimos 15 dias o Prefeito José Queiroz concedeu uma série de entrevistas que foram divulgadas nos jornais locais, em programas de rádio e nos diversos blogs de política da cidade. Os objetivos dessas entrevistas, obviamente, foram oferecer uma explicação convincente para o evidente e palpável desgaste da gestão logo no início do segundo mandato.
A importância desses pronunciamentos para tentar desanuviar o clima pesado que paira sobre a prefeitura, se tornaram tão relevantes, que os mesmos foram meticulosamente pensados e coreografados.

Proferidos na sede do Executivo municipal, muito similar a Fala do Trono das monarquias, pois tiveram o simbolismo de oferecer a versão oficial do Chefe do Executivo para as diversas crises que atormentam a gestão e as ações tomadas para resolvê-las. Tal estratégia de conversar individualmente e num ambiente controlado diminuiu os riscos de uma coletiva de imprensa, o que poderia atrapalhar os resultados esperados.

O interessante em analisar o conteúdo dessas entrevistas foi a possibilidade de entender como o prefeito avalia tanto a sua gestão bem como o atual momento político da cidade. E uma das conclusões que salta a vista é que há uma desconexão explícita entre o que o prefeito pensa e o que está acontecendo em Caruaru. Queiroz está intoxicado com a sua percepção da realidade, ele acredita piamente na sua interpretação, na sua avaliação do governo, desconsiderando todos os elementos que não se encaixam no seu julgamento. Enquadrando não a sua análise a realidade, mas realizando o caminho inverso acomodando a realidade as suas análises.

Estão errados todos os que criticam a sua gestão, ou que oferecem opiniões que não se encaixam com as suas. A população em geral, os membros do legislativo, a imprensa, a CGU, o TCE e os analistas políticos, nenhum desses grupos, seriam capazes de julgar as nuances e as complexidades de suas ações e a eficiência do seu mandato. O prefeito não apenas construiu um castelo do ar, mas passou a habitá-lo, e por ter a convicção explícita da validade das suas ações recusa-se a realizar as correções de rumos necessárias. Insiste no tema da nova cultura política, mesmo que tenha submetido o legislativo municipal através do clientelismo e fisiologismo e mantenha quase 70% dos cargos da prefeitura ocupados por pessoal sem concurso, empregando principalmente seus correligionários.

As denúncias sobre a paralisia de obras iniciadas no mandato anterior se avolumam, as mesmas que foram prometidas durante o período de campanha. Além de graves questionamentos sobre a qualidade das obras de infraestrutura realizadas. Os problemas na Avenida Brasil e no Distrito Industrial, não tiveram explicações convincentes. Ninguém na pasta responsável soube explicar quem eram os envolvidos pelos erros e quais providências seriam tomadas para punir os envolvidos no patente desperdício do dinheiro público. E apesar do clima de guerra persistente e eterno na saúde e na educação, prossegue insistindo que não há desgaste nenhum. Repetindo que não mudaria nada na estratégia e no conteúdo do PCC da Educação Municipal, alegando que a sua motivação para tal ação foi escassez de recursos para financiar a educação municipal.

Fato amplamente desmentido pela CGU, que revelou a maneira inconseqüente e irresponsável como os recursos do FUNDEB foram empregados na cidade. Faltam competência, compromisso e vontade para implantar uma educação pública, gratuita e de qualidade em Caruaru, mas recursos financeiros são os únicos elementos da equação que não faltam. Há explicação para tal comportamento desconexo do prefeito foi oferecida já no século XVI, no livro o Príncipe, de Maquiável: “Creio, ainda, seja feliz aquele que acomode o seu modo de proceder com a natureza dos tempos, da mesma forma que penso seja infeliz aquele que, com o seu proceder, entre em choque com o momento que atravessa.”

Queiroz embora tenha tido uma administração bem avaliada de 1982 a 1988, tenta em 2013, repetir as mesmas estratégias do passado, e como afirmou Maquiável, não reconhece que os tempos são outros. Hoje temos uma sociedade mais escolarizada, acostumada à normalidade democrática, conectada em rede e que clama por transparência, eficiência e uma participação social efetiva; algo que a prefeitura não está conseguindo realizar. Para sair desse labirinto o prefeito não pode mais agir como Narciso, que acha feio aquilo que não é espelho. O que torna mais do que urgente abandonar o reino da imaginação em que está e admitir que o momento é adverso.

Implantando medidas fortes que reconstituam as suas bases de apoio nos diversos segmentos sociais, reconectando-o com o clamor das ruas. Afinal quando as margens se despedaçam é impossível ao centro permanecer estável. Senão o Prefeito continuará, ao longo dos próximos anos, agindo como Dom Quixote investindo contra inimigos imaginários.

*Mário Benning é professor e analista político


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro