O que pode mudar com a entrada de Mendonça Filho na disputa ao Senado?

Mário Flávio - 03.08.2026 às 20:41h

O movimento que levou Mendonça Filho para a disputa ao Senado alterou significativamente a dinâmica da eleição em Pernambuco. Até então, o debate estava concentrado na formação das chapas de Raquel Lyra e João Campos. Agora, a disputa passa a ter uma variável própria, com potencial para influenciar tanto a corrida ao Governo quanto o comportamento do eleitor na escolha dos senadores.

O primeiro fator é estrutural: são duas vagas em disputa. Isso torna a eleição para o Senado muito diferente da disputa majoritária para governador. O eleitor pode combinar votos entre candidatos de grupos distintos, o que abre espaço para alianças formais e também para “dobradinhas” informais construídas durante a campanha. Historicamente, o segundo voto costuma ser decidido apenas na reta final, tornando o cenário mais volátil e menos previsível.

Nesse contexto, Mendonça Filho assume uma posição singular. Embora seja candidato pelo PL, sua candidatura dialoga diretamente com o eleitorado de Raquel Lyra. Na prática, ele pode funcionar como um “terceiro candidato” do campo governista, mesmo sem integrar oficialmente a chapa. Isso amplia o leque de opções para o eleitor que pretende votar na governadora, mas também cria desafios para a coordenação política da campanha.

A principal incógnita é o comportamento de Raquel Lyra. Em um primeiro momento, a tendência é que concentre seus gestos nos candidatos oficialmente ligados à sua chapa. Entretanto, caso Mendonça mantenha competitividade nas pesquisas ao longo da campanha, surgirá a dúvida sobre até que ponto a governadora poderá fazer movimentos de aproximação. Uma eventual sinalização poderia fortalecer Mendonça, mas também gerar desconforto entre aliados que disputam o mesmo espaço político. Ainda assim, não seria um movimento totalmente inesperado, considerando a relação política construída entre eles ao longo dos últimos anos.

Outro aspecto relevante envolve o eleitorado tradicional de Mendonça Filho e da família Coelho. Parte desse grupo pode enxergar sua candidatura como uma alternativa ao projeto de Eduardo da Fonte, especialmente após as disputas internas pela composição da base governista. Ao mesmo tempo, esse mesmo eleitor também pode optar por uma estratégia de voto útil, buscando fortalecer candidatos do mesmo campo político para impedir a eleição de nomes ligados ao bloco adversário.

Também merece atenção o comportamento do eleitor lulista que apoia Raquel Lyra. Esse segmento encontra em Túlio Gadelha um candidato naturalmente alinhado ao governo estadual e que mantém identificação com o presidente Lula. No entanto, caso Mendonça apresente crescimento consistente durante a campanha, parte desse eleitorado pode migrar para Humberto Costa ou Marília Arraes numa lógica de contenção, tentando evitar o avanço de um candidato do PL. A presença de Túlio na chapa governista foi justamente pensada para dialogar com esse eleitorado, o que adiciona mais uma camada de complexidade à disputa.

No fim das contas, ainda é cedo para afirmar como essas movimentações se traduzirão nas urnas. O que já é possível observar é que a eleição para o Senado deixou de ser apenas um reflexo da disputa entre Raquel Lyra e João Campos e passou a ter uma dinâmica própria, com múltiplos cenários possíveis, alianças cruzadas e espaço para mudanças ao longo da campanha. Em uma eleição em que dois votos estarão em jogo, a tendência é que as estratégias dos candidatos e o comportamento do eleitor sejam determinantes até os últimos dias de campanha.