22 de março de 2014 às 10h48min - Por Mário Flávio

Da Revista Época

Ao chegarem ao luxuoso condomínio Rio Mar IX, na Barra da Tijuca, na manhã da segunda-feira (17), os agentes da Polícia Federal no Rio de Janeiro provavelmente não sabiam que bateriam à porta de um dos homens mais poderosos da política brasileira. Para eles e os delegados que haviam obtido um mandado de busca e apreensão para vasculhar aquele nobre endereço, o engenheiro Paulo Roberto Costa era apenas mais um beneficiário – ainda que um beneficiário importante, por ter sido executivo da Petrobras – de um esquema de lavagem de dinheiro que movimentara cerca de R$ 10 bilhões nos últimos anos. Os policiais haviam descoberto que Costa era um cliente VIP de Alberto Youssef, um dos principais doleiros do país, apontado como chefe da organização criminosa desmontada, nos últimos dias, pela operação batizada pela PF de Lava-Jato.

Mas Paulo Roberto Costa não era apenas mais um ex-executivo da Petrobras. Ou um mero cliente de Youssef – doleiro ligado historicamente ao PP, um dos partidos da base aliada do governo Dilma, que lavou dinheiro para os deputados da sigla durante o mensalão. Entre 2004 e 2012, Costa foi o mais influente diretor da Petrobras. Não no Rio, onde funciona a sede da empresa. Mas em Brasília, onde funciona a sede do poder. Especificamente, naquele nicho em que dinheiro e política se combinam para conduzir os destinos do país. Costa era o principal elo da Petrobras com esse mundo. Comandava a área de abastecimento e refino da estatal. Controlava operações de compra e venda de combustível e obras em refinarias. Negociava contratos para a construção de novas usinas e para reparos nas antigas.

Funcionário de carreira da Petrobras, Costa chegara ao cargo por indicação do PP, num momento em que o doleiro Youssef já lavava dinheiro para deputados do partido, com o aval do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, do PT. Com a crise do mensalão, Costa não caiu. Ficou ainda mais forte. O segredo? Entender – e atender, segundo seis pessoas próximas a ele, entre amigos, políticos e parceiros de negócios – as necessidades de Brasília. Passou a ter o apoio não apenas do PP e do PT. Mas também da turma do PMDB do Senado, a turma mais poderosa do PMDB. Com o tempo e o acúmulo de favores prestados aos políticos, ganhou a confiança do então presidente Lula, com quem mantinha uma linha direta de comunicação. Nunca recusava um pedido político.

Para os políticos, a diretoria de Costa na Petrobras era uma Disneylândia, repleta de ricas possibilidades. Quão ricas? Nos próximos quatro anos, a Petrobras pretende gastar US$ 39 bilhões nessa área. Supera a soma dos orçamentos de todos os ministérios comandados pelo PMDB. E a Diretoria de Abastecimento sempre apresentou uma vantagem essencial. Embora tenha um orçamento ligeiramente menor que a Diretoria de Exploração, concentra mais oportunidades de fazer dinheiro. Costa não precisava de autorização de mais ninguém para fechar centenas de contratos milionários de compra e venda de combustível. E tinha permissão de Lula para tocar os contratos bilionários de construção – todos com indícios de superfaturamento, segundo o Tribunal de Contas da União – das refinarias que a Petrobras ergue, bem lentamente e com sucessivos atrasos, no Brasil. A presidente Dilma Rousseff, que não gostava de Costa, tentava derrubá-lo desde o começo de seu governo. Encontrava resistências de todos os políticos, mesmo indiretamente, de Lula. Conseguiu apeá-lo apenas em 2012, para desespero da base aliada.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro