27 de janeiro de 2018 às 09h31min - Por Mário Flávio

Ele estava ali. Você pode até não ter notado. Não tinha hora certa nem momento combinado. Calmo, sereno e quieto. Quando menos percebíamos sentava próximo, apoiado numa janela ou apenas num vulto ao lado. Era ele passando. Passos tranquilos, olhar atento. O guardião da Estação.

Um dia desse, passeava entre as algarobas, observava o crepúsculo imponente de sua terra, enquanto o sol opunha-se apresentando a primeira estrela da noite, estava passeando. Passou entre o Galpão e o prédio da antiga Estação, observou o Instituto Histórico de Caruaru, encarava também quem estava próximo, mas sem intimidar, apenas dirigia seu olhar manso porém profundo. Como um tutor seu zelo era notado por todos.

Deu mais alguns passos, a igrejinha já não estava mais lá. Nem Rosa Doceira. Ergueu a cabeça e viu o céu manchado de azul com alaranjado forte que só a natureza era capaz de produzir naquele início de noite de domingo frio. À sua esquerda a Casa do Boi Tira-Teima, depois deu mais alguns passos e observou a Casa do Pife e logo depois, encostou-se no teatro de Mamulengos Mamusebá, viu a janela entreaberta e a beleza esplendorosa daquele lugar. A Casa do Cordel… Caminhou mais uns passos, uns jovens na Casa de Capoeira de Angola, fitou-os… Sua forte afeição por aquele lugar titulava-o também como vigia de riquezas, pois a qualquer dano ou perigo, logo comunicava aos artistas ou acionava a segurança.

Depois seguiu andando e lembrou do antigo pórtico que havia. Contemplou a imensidão do espaço livre, sua memória se perdeu no horizonte das lembranças de tantos encontros de cultura ali vividos, das amizades e boas conversas do Café Guarani, nas escadarias da Catedral, na Matriz… Fechou os olhos, orvalhados, e teve a impressão do trem também ali passando. Mas, em vez do ensurdecedor barulho, escutava o silêncio dos trilhos, das marcas de despedida e emoção dos passageiros do passado, tão presente.

Havia um vento estranho, agradável, sem direção que o induzia calmamente á vontade. Em um determinado momento ele percebeu que a vida é como trilhos que tem um fim, e a infinitude parecia uma ilusão. O Guardião da Estação se preparava para uma viagem e não sabia.

Ao sair dali, todas as vibrações indesejadas de sua alma se diluíram. Murilo parecia jovem novamente. Foi para casa e dormiu, vindo a despertar numa outra estação.

Estações também são recomeços, trem também é futuro.

Calado, sem alarde, sem fumaça, o trem da eternidade chegou e o levou.

As vezes o trem da vida é assim, ele chega, e o momento é de partir…

*Paulo Nailson de A. Lima é colaborador


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro