22 de março de 2014 às 10h24min - Por Mário Flávio

Caro Mário, Na última segunda-feira (17/03), a Prefeitura Municipal de Caruaru, por meio de uma ação promovida por seu Gabinete Digital, realizou uma roda de debates sobre uma eventual “revitalização” da Rua Silvino Macêdo, conhecida popularmente como “Rua da Má Fama”. Debates como este acabam se tornando irrelevantes frente a diversos problemas mais graves, que se assolam em meio a atual situação vivida em nosso município. Seria cômico se não fosse trágico, observar um governo que se nega a discutir os problemas caóticos da educação municipal, mas se dispõe a debater sobre os problemas de um equipamento de lazer frequentado por uma pequena parcela da população, apenas para levantar o ego da secretária e seus seguidores, motivos pelo qual me abstenho a participar de tais eventos, contudo, o que não me impede de contribuir, com a inoportuna, mas importante discussão.

Ora, também sou frequentador dos bares e restaurantes da rua e percebo a mínima importância em discutir seus problemas e apresentar suas soluções, pois trata de matéria de potencial interesse, que envolve não só os frequentadores, mas os comerciantes, artistas, moradores e motoristas que trafegam naquela localidade. A Rua Silvino Macêdo é responsável por resgatar o cenário alternativo da cidade, que há tempos andava apagado e discriminado, difundindo esse movimento através dos proprietários de alguns bares, a exemplo do pioneiro Chico, da Mercearia Ponta de Rua, além dos diversos artistas que se apresentam nestes estabelecimentos. Incialmente, o público da rua era, de fato, “alternativo” ao estereótipo do frequentador da noite caruaruense.

A presença massificada do público LGBT era constante, motivo que deu à rua o pejorativo título de “Má Fama”, pois quem frequentasse o local era preconceituosamente condenado por boa parte dos moradores da cidade.
Acontece que a rua em que os bares tocam MPB, reggae, rock n’ roll e afins, começou a atrair uma grande parcela do público caruaruense movido pela carência de locais para a prática de lazer e pela falta de opções de bares e restaurantes que apresentem uma proposta alternativa ao tradicional forró que toca na cidade. Nesse sentido, um fato social bastante interessante ocorreu. A rua que antes era rotulada como o local frequentado pela boemia marginalizada, agora atraía a “alta sociedade” caruaruense.

O emblemático nome “Má Fama”, agora, era apelido carinhoso. Frequentar a rua estava na moda. O preconceito foi supostamente vencido.
A Rua da Má Fama entrou na agenda cultural caruaruense, atraindo um público diversificado, abrangendo todas as classes sociais. Atrelado ao potencial de comércio, diversos ambulantes estacionaram definitivamente na rua, acomodados pela ausência de fiscalização. Motoristas e motociclistas estacionam seus veículos aos montes, sem nenhuma obediência às regras de trânsito, na medida em que é ausente um ordenamento de tráfego adequado, e pessoas se aglomeram no meio da rua, causando o congestionamento da via. Como se não bastasse tais problemas, os verdadeiros marginais começaram a aparecer, atraídos pelo potencial econômico que a rua lhes oferece. Agora, bandidos de toda ordem, mais especificamente, traficantes de drogas, batedores de carteira e ladrões de carros são os protagonistas da noite.

Eu mesmo sofri, recentemente, uma tentativa de furto do meu veículo, que estava estacionado na Rua Padre Félix Barreto, paralela a Silvino Macêdo, o que me deixou bastante assustado, mas não me impediu de frequentar a rua novamente. A gota d’água foi o caso do assassinato do médico alagoano, morto a facadas, na Estação Ferroviária, quando voltava de um dos bares da rua; além de outra morte, ocorrida no final do ano passado, ocasião em que um jovem foi assassinado em circunstâncias semelhantes, e o crime, segundo testemunhas, foi motivado pela tentativa de roubo de um boné da vítima. O caos estava instaurado.
Após várias reclamações, cartas de repúdio e manifestações nas redes sociais, foi instalada uma câmera de segurança, apenas.

A instalação do equipamento não foi suficiente para diminuir a violência, bem como evitar uma evacuação em massa do público para outras opções alternativas que começavam a surgir na cidade, a exemplo do bar Black Diamond. O medo e a sensação de insegurança dispersou o público da Silvino Macêdo, que agora prefere curtir suas noites em outros lugares, até mesmo, dentro de casa, onde supostamente estão mais seguros. E o que o poder público está fazendo para mudar tal situação? Nada! Já que, no Brasil, a violência é banalizada e a segurança pública, ignorada. Acredito que a solução ideal para os problemas apresentados seria uma relocação dos espaços alternativos para um local adequado, a exemplo do que se tenta fazer na Estação Ferroviária, a poucos metros da famosa rua, que poderia, muito bem, abrigá-los se houvesse o incentivo a uma total reestruturação do local.

Cidades menores que Caruaru, como Petrolina-PE e Mossoró-RN, são exemplos de municípios que incentivam e investem na adequação dos espaços alternativos e polos gastronômicos. Que pena não ser do interesse dos comerciantes locais, nem do poder público municipal, o investimento em uma nova estrutura que pudesse abrigar tais espaços com maior conforto e segurança. Como solução imediata, os principais problemas que afetam a rua poderiam ser solucionados pelo poder público municipal, em parceria com o Batalhão de Polícia local, solicitando o aumento do número de policiais e viaturas, fazendo o patrulhamento preventivo e ostensivo, coibindo a atuação de criminosos na região. De competência da Prefeitura Municipal, necessária se faz a colocação dos agentes da Guarda Municipal, zelando pelo patrimônio público e privado, além de agentes de trânsito, fiscalizando e educando o tráfego da rua. Um dos problemas que mais fez desencadear o processo de decadência da Má Fama seria solucionado com uma efetiva fiscalização do comércio ambulante, cuja prática é regulamentada pelo Código Municipal de Posturas, ao qual deveria ser aplicado. Indo mais além, talvez fosse necessária uma intervenção do tráfego da via durante os finais de semana, fazendo com que as pessoas pudessem circular livremente sem o risco de sofrerem um atropelamento.

Uma pena, já que a cidade é extremamente carente de mobilidade urbana, sendo a rua, uma das principais vias que cortam o município. Portanto, o problema está posto. A solução, também! Basta tão somente que os gestores tomem conhecimento, atendendo e colocando em prática o que for necessário, e que não faça dessas “rodas de debate” o exemplo das eternas plenárias e reuniões do Orçamento Participativo, perpetuando-se na conversa, na teoria (ou “balela”). O diálogo é, de fato, bonito, mas enquanto a Silvino Macêdo ainda respira, precisamos de mais ação, de trabalho.

*Por Otávio Varêda – Estudante universitário!


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro