4 de fevereiro de 2021 às 09h28min - Por Mário Flávio

Principal evento na agenda cultural do Nordeste, o Carnaval é a união de música, dança e expressões artísticas. Em um ano que não haverá festas nas ruas, devido à pandemia, a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), instituição vinculada ao Ministério da Educação (MEC), marcará a festividade com a realização do Carnaval de Todos os Tons.

Montada pela  Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte (Dimeca), a programação será realizada de 8 a 17 deste mês. Reunirá exposições, lançamento de concurso de frevo, exibição de filmes, oficina de fantasia de papel e filmes.  

Dois grandes pernambucanos são os homenageados: o cronista Antônio Maria e o Maestro Duda. O Carnaval de Todos os Tons celebra o centenário de Maria, cuja data é 17 de março próximo. O músico terá sua dedicação ao frevo reconhecida no Concurso Nordestino de Frevo – Homenagem ao Maestro Duda.  A programação virtual será exibida pelo YouTube Fundaj Oficial e replicada nas demais redes sociais da Instituição.  A presencial será restrita a uma exposição no Shopping Center Recife e chamadas nas redes.

“Uma das festas mais aguardadas ao longo de todo o ano, o Carnaval cumpre um papel fundamental para a saúde mental, a sociabilidade, a economia e a manutenção de manifestações. É um orgulho para esta Casa, comprometida com a memória e a cultura, manter de forma segura tradições que são tão fortes no Nordeste e no País”, reflete o presidente da Fundaj, Antônio Campos. Ele destaca que a Fundação preparou uma programação que possibilitará ao público viver o período carnavalesco, ainda que não seja nos moldes tradicionais. “Neste ano, as avenidas e ladeiras, os confetes e as serpentinas vão ao encontro do folião em um Carnaval de e para todos os tons”, celebra.

O principal tributo será dedicado ao cronista, comentarista esportivo e compositor pernambucano Antônio Maria (1921—1964), cujo centenário será comemorado em março deste ano. Dentre as contribuições para a maior festa popular do País, o diretor da Dimeca, Mario Helio, lembra que o homenageado é co-autor da canção Manhã de Carnaval, em parceria com Luiz Bonfá. “O centenário dele está próximo e ninguém está falando disto. Antônio Maria é um nome importante. Se fossemos fazer uma lista de 100 músicas de Carnaval, pelo menos quatro composições dele estariam”, justifica Mario.

É de autoria do cronista o Frevo nº 1, nº 2 e nº 3, dedicados ao Recife em tom nostálgico. Antônio Maria faleceu aos 43 anos, de um problema cardíaco. “Morreu do coração, do que aliás estava repleta a sua obra. Ele traz uma obra muito lírica, muito brasileira”, diz Mario Helio. Trajetória que será visitada na palestra do advogado Arthur Carvalho, estudioso da obra de Maria.

Já o Maestro Duda terá os seus 71 anos de dedicação ao frevo celebrados na premiação em sua homenagem. O Concurso Nordestino de Frevo – Homenagem ao Maestro Duda terá seis categorias e 12 contemplados: Melhor Frevo de Rua, Melhor Frevo de Bloco e Melhor Frevo Canção, Melhor Intérprete, Melhor Arranjo e Hino da Turma da Jaqueira Segurando o Talo. Os valores das premiações são de R$ 4 mil a R$ 10 mil. O edital será disponibilizado na página da Fundação, no endereço www.fundaj.gov.br, com prazo de inscrição até 12 de junho e resultado no Dia Nacional do Frevo, em 14 de setembro.

“Participei de quase todos os festivais e concursos. Por isso, estou muito feliz em ser escolhido para ser homenageado. Durante mais de dez anos dirigi um dos principais deles, o Frevança”, comemora o Maestro Duda. Além de regente, José Ursicino da Silva, o Maestro Duda, é compositor, instrumentista e arranjador. O homenageado nasceu em Goiana, município da Zona da Mata Norte, tida como terra de músicos. Autor do frevo “Furação”, compôs também diversos outros frevos, choros, sambas e declara a importância da iniciativa que comenta composições. “Tem muita gente querendo compor e não sabe por onde começar ou onde apresentar. Existem muitos frevos sendo produzidos, mas falta espaço para divulgação”, reclama Duda.

Para participar, o candidato deverá residir em um dos nove estados do Nordeste. “É um concurso regional. Portanto a abrangência é toda a região. A Bahia também tem frevos importantes de Caetano Veloso, de Moraes Moreira. Neste momento será sobre o frevo, o que não nos impede de abordarmos outro gênero no futura”, reflete Mario Helio. As produções das faixas deverão ser feitas pelos proponentes e enviadas em arquivo de áudio, no formato mp3. “Nossa diretoria é de memória, onde a história é parte do patrimônio. Queremos chamar a atenção para a Fonoteca da Fundação, no ano em que estamos concluindo a digitalização do nosso acervo”, explica.

Exposições – Com base nos acervos do Centro de Documentação de Estudos da História Brasileira (Cehibra) e do Museu do Homem do Nordeste (Muhne), duas exposições também serão lançadas. Os desenhos de fantasias criadas pelo artista plástico Manoel Bandeira (1900—1964), no fim da década de 1930, poderão ser conferidos dos dias 8 a 17 de fevereiro, no Piso 1 do Shopping Center Recife. A exposição ‘Carnaval: Nassau, frevo, cana e caju’ visita o elemento essencial à folia de Momo no ano em que ela não ganhará ruas e ladeiras. “Ainda que não tenhamos a festa, o Carnaval existe e pode ser vivenciado de outro modo, a partir do acervo histórico”, reflete a coordenadora do Cehibra, Betty Lacerda.

Com curadoria de Rita de Cássia e Rodrigo Cantarelli, os croquis exibidos na mostra foram publicados no Anuário do Carnaval Pernambucano, que compõe a coleção do Cehibra, e aludem a figuras da história e elementos da fauna e flora associados à indústria e agroindústria locais. “Os desenhos de Manoel foram confeccionados sob encomenda de malharias e fábricas da indústria têxtil. As senhoras da elite iam até essas lojas e escolhiam a fantasia a ser confeccionada. Com elas, fizeram parte até dos concursos de fantasias”, contextualiza Betty. Além dos painéis, com desenhos e textos curatoriais, o público poderá conferir partituras, como a do Hino do Vassourinhas.

Explorando as possibilidades das redes, o Museu do Homem do Nordeste lança a exposição La Ursa, também no dia 8, com curadoria de Antônio Montenegro. Diversos registros do acervo do Cehibra em que personagem e a brincadeira têm destaque integram a montagem audiovisual que será vinculada às redes sociais da Casa. Um vídeo-performance com trilha incidental também foi produzido e conta com o arte-educador Cleyton de Melo Nóbrega sob a forma de brincante. “A ideia é focar no personagem que, além de interessante, é característico do Nordeste. É diferente do Bumba[-meu-boi] que aparece em outras regiões”, justifica o curador.

Também nas redes sociais o público infantil confere, no mesmo dia, a oficina preparada pela Coordenação de Ações Educativas do Muhne. Em diálogo com a exposição de desenhos de fantasias do artista plástico Manoel Bandeira, a meninada vai aprender a confeccionar fantasias de papel. O tutorial online contará com a facilitação do arte-educador Emerson Pontes.CinemaPara completar a programação, a Cinemateca Pernambucana preparou uma Mostra de Carnaval. Todos os filmes que abordam a temática estarão disponíveis em uma sessão especial, na home do site www.cinematecapernambucana.com.br.

Com curadoria da coordenadora do Cinema da Fundação e da Cinemateca Pernambucana, Ana Farache, o público irá conferir títulos documentais como Olha o Frevo (1970), no qual o diretor Rucker Vieira passeia pela história e tradição do ritmo no seu estado de origem. Quatro décadas depois, a documentarista Dea Ferraz reúne a nata em Sete Corações (2014), do Maestro Duda ao Maestro José Menezes (em memória).


Comentários


...

Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro