10 de abril de 2015 às 11h30min - Por Mário Flávio

 

 

Por Carlos Plácido


Raquel Rolnik é uma das mais importantes urbanistas do mundo. Já foi relatora especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada, secretária nacional de Programas Urbanos do Ministério das cidades e diretora de planejamento da cidade de São Paulo. Atualmente é professora da USP e colunista do Jornal Folha de São Paulo e do portal Yahoo. Na próxima segunda-feira (13) ela estará em Caruaru para uma palestra aberta ao público. O evento se chama Diálogos Urbanos e é promovido pelo curso de arquitetura e urbanismo do Unifavip Devry. Antes de chegar à cidade, a urbanista Raquel Rolnik concedeu uma entrevista onde também aborda temas relacionados à Caruaru. 

 

O tema da sua palestra em Caruaru é “desenvolvimento econômico e cidades do Brasil. Por que continuamos reproduzindo a precariedade?” O que você quer dizer com reproduzindo a precariedade?

 

Nós não construímos até hoje no Brasil um modelo de apoio ao desenvolvimento urbano que garanta o trabalho urbanizado para todos os moradores da cidade. É isso que eu chamo de precariedade. Nós não temos condições de circulação de transporte e mobilidade adequada para todos, saneamento ambiental, água, esgoto, drenagem, qualidade dos espaços públicos, qualidade na manutenção e gestão dos equipamentos. Tudo isso ainda é absolutamente precário apesar de termos virado dentro do ponto de vista do desenvolvimento econômico. E aí eu coloco a questão de que Caruaru é uma cidade que cresceu muito economicamente, cresceu muito demograficamente, tem mais população, mais dinâmica econômica, mais potência econômica, entretanto não oferece um grau básico de urbanidade para todos os seus moradores.

 

O plano diretor de Caruaru está para ser atualizado este ano. O que a senhora indica como prioridade para uma cidade de médio porte como Caruaru?

 

Acho fundamental a discussão do plano diretor. Para caruaru é uma oportunidade para que se estabeleça um pacto, um acordo básico do conjunto dos cidadãos na direção do seu futuro. Ele pode estabelecer diretrizes para o crescimento, diretrizes da organização da cidade. Infelizmente não é assim que têm sido tratadas, em geral, as diretrizes do plano diretor. Os planos são feitos e acabam sendo engavetados, abandonados.

 

Por que não é comum ver os gestores municipais aplicando na prática o que diz o plano diretor? Eles esbarram em dificuldades ou fazem pouco caso?

 

Em cada gestão se busca objetivos de curtíssimos prazos, coisas que possam ser inauguradas em quatro anos para que a gestão possa ser reeleita e o mandato dos gestores reproduzidos. O plano diretor e o planejamento das cidades tem uma dimensão temporal muito maior do que quatro anos. É uma dimensão de 15, 20 anos e não necessariamente as coisas mais importantes a serem feitas são as coisas que aparecem, que podem ser inauguradas e possam ser coladas na vitrine. O grande problema que nós temos de implantação no processo de planejamento é esse e também, evidentemente, o fato de muitas decisões serem tomadas sob pressão de agentes diretamente interessados em projetos e programas para que possam usufruir lucros nessas iniciativas. Então isso também acaba desconstituindo os documentos de planejamento como algo que deve ser seguido.

 

Ano passado, a Prefeitura de Caruaru lutou por um financiamento, perante o Governo Federal, de 250 milhões de reais para a construção de um BRT, o que gerou muita discussão na cidade. Os que não defendiam o projeto diziam que essa era uma obra cara e ineficiente. O BRT é mesmo uma boa solução ou uma proposta defasada?

 

Não existe uma posição em relação a BRT ou VLT. Tudo depende de qual é a demanda que você tem. O corredor exclusivo de ônibus é um meio que atende a uma demanda de média capacidade. Então não dá para dizer se é defasado ou não. Um sistema de transporte planejado pode utilizar um corredor de ônibus como um dos modais e isso pode ser feito desde que a demanda que se tem nesse corredor, nesse eixo, seja uma demanda de média capacidade. Quando é uma demanda de maior capacidade se consegue atender com soluções do tipo VLT, metrô de superfície ou trem.

 

Como você enxerga a criação de centros de compras em áreas mais afastadas da cidade? Qual o impacto urbano disso?

 

Um impacto na extensão da mancha urbana. Isso significa reproduzir o nosso velho modelo, expandindo a cidade cada vez mais, exigindo deslocamentos cada vez maiores, exigindo uma infraestrutura de suporte pra isso. Então fica muito mais difícil, muito mais caro do que trabalhar com uma cidade mais compacta.

 

A palestra será as 18:30 no Maria José Recepções I. As 600 vagas disponibilizadas já foram preenchidas, mas quem quiser entrar na fila de espera pode realizar um cadastro no sitesites.google.com/site/dialogosunifavip . Caso consiga uma vaga, o interessado deve levar 1kg de alimento não perecível que será doado à Casa dos Pobres São Francisco de Assis.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro