31 de março de 2014 às 14h55min - Por Mário Flávio

Por Tâmara Pinheiro – Do livro: Relatos da ditadura em Caruaru – Histórias que os livros não contam

O Golpe veio com a ideia de mudar o velho pelo novo. O novo seria uma sociedade nova, seria uma criança. E houve esse engano: no lugar da criança veio o monstro.
É assim que Severino descreve a ditadura militar. O golpe se concretizou no dia 1º de abril (ironicamente, o dia da mentira), mas há tempos já vinha sendo planejado.

“Nós, os comunistas, sabíamos que se preparava um golpe, mas a massa não sabia. Pensavam que era uma revolução, e assim o golpe aconteceu e se perpetuou”. Na manhã do dia 1º de abril de 1964, Severino saiu da sua casa tranquilamente. Estava disposto a ir ao centro, ao comércio local. Sua tranquilidade acabou quando encontrou um amigo chamado Jurandir, que tinha o apelido de Terror. O Jurandir Terror trouxe à tona a nova realidade para o Poeta.

“Na época eu não tinha televisão, nem telefone. Tinha acesso a um rádio, mas não estava sabendo das notícias recentes. Chegando à frente da Fábrica Marília, onde se fabricavam doces, encontrei o companheiro que me alertou do perigo”. Ao ver Severino, Jurandir ficou nervoso. “Rapaz, você ainda está por aqui? Vá embora que o pessoal já está preso na CR. O cabo Laércio passou pelas ruas prendendo e se você aparecer por lá, vai ser preso. A maioria do pessoal já foi tudo embora e eu vou viajar agora mesmo. E você, vá embora!”

Depois do aviso, Severino percebeu que o tão temido Golpe Militar tinha acontecido. Então, foi até a casa de um amigo, Artur da Silva, que era cunhado de um dos elementos comunistas mais procurados em Caruaru, Ernesto Correia de Melo, conhecido como Ernesto do Colchão. Artur se desesperou ao ver que o comunista Severino ainda estava na cidade.

“O que você está fazendo aqui, Severino? – indagou Artur. Depois mostrou Ernesto escondido em seu quintal. Pediu ajuda a Quirino, temendo represália dos militares.
No caminho de volta para casa, uma tropa do exército estava em seu caminho”. Severino recorda os momentos de tensão que enfrentou por causa deste encontro.

“Os soldados estavam com fuzis nas mãos. Eles davam cinco passos, paravam. E repetiam o movimento. Pensei que estavam me cercando, lembro das mulheres nas portas das casas, olhando a tropa e eu”. Mas, a tropa, com seus cinco passos, desceram a rua até a casa do pedreiro e comunista Pedro José da Silva, o Pedro Bento, para prendê-lo. Esta não era a primeira vez que Pedro era preso.

Segundo relatórios da Secretaria de Segurança de Pernambuco, ele já havia sido detido, em três de Janeiro de 1951, acusado de atividade comunista. Mas, dessa vez, a prisão teve resultado diferente. Severino lembra que, depois daquele dia só conseguiu encontrar Pedro na UTI de um hospital.

“Ele estava muito machucado, não conseguia nem falar. Depois da minha visita não o vi mais. Soube que ele veio a falecer”. Os comunistas caruaruenses sentiram o poder repressor do golpe logo nos primeiros dias. As principais lideranças do partido, revolucionários contrários ao novo sistema de governar o país, foram capturados pela polícia, apoiada pelo governo municipal.

“No dia da revolução, os principais nomes que foram presos em Caruaru foi Abdias Lé (in memória) e Manoel Messias. Quem mais se destacou à frente da luta, foi quem caiu primeiro”. Para a oposição, o governo do prefeito de Caruaru, Drayton Jaime Nejaim (in memória), de 1963 a 1968, era tido como opressor por apoiar os militares.

“Caruaru na época era gerenciada por uma pessoa retrógrada, anti-social e sem princípios, que vinha recebendo apoio dos militares”. Quando se soube, através das notícias do rádio, que as tropas do general Olímpio Mourão Filho saíram de Minas Gerais e chegaram ao Rio de Janeiro, instalando assim o golpe, os caruaruenses mais informados, os políticos e formadores de opinião entraram em alvoroço. Cada um, com sua opinião, com seu lado, buscou formas de alertar a população, para a chegada de uma nova era. Para os comunistas, uma época de terror.

A PRISÃO – Era tarde de 18 de dezembro de 1972. Severino Quirino estava trabalhando na calçada de sua casa. Com um arame montado, o Poeta estava fabricando um colchão, profissão que aprendeu e ensinou para seus filhos. De repente, Severino percebe uma movimentação estranha. De cada lado, dois soldados descem ao seu encontro. Todos com posição de ataque, com armas com aparência de serem recém-compradas.

“Logo percebi que era o Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Cercaram-me, nem tive tempo de reagir”. Os soldados abordaram Severino e bradaram:
– Ponha a mão na cabeça e poupe sua vida!
Ele não teve escolha, poupou sua vida. As lembranças deste dia estão bem nítidas para o Poeta. “Me mandaram encostar na parede, me revistaram, viram que eu não estava armado, mesmo assim me levaram”. Conduziram-no para um veraneio, carro da época, e partiram para a cidade do Recife, capital do estado.

Severino foi levado primeiro para o Departamento de Defesa Interna, o Doi-Codi. O veraneio entrou em um primeiro salão. Tiraram o Poeta do carro e dois guardas botaram-no em uma cela, com cerca de seis metros de comprimento. O clima quente e úmido, próprio das cidades litorâneas, fez Severino perceber que estava no Recife. O escuro e o silêncio reinavam no local. Trinta minutos depois, ele ouviu alguém tossindo, suspiros. Foi quando notou que não estava só.

Logo na primeira noite de prisão, as torturas começaram. Levaram Severino para o que ele chama de Corredor da Morte. No local, celas que podiam ser cenário de filmes de terror: teto baixo, apenas uma lâmpada que mal iluminava. Essas celas estavam cheias de gente. No final do corredor, apresentaram a Severino um laudo, para que pudessem, de alguma forma justificar sua prisão. Ele não teve escolha, concordou com tudo e voltou para a cela.

Foram 25 dias no Doi-Codi. A rotina, rígida como em um quartel, tinha hora certa para as refeições e também para as torturas. “No café da manhã passavam uma bandeja por baixo da porta. Era um copo de café e um pedaço de pão. Não tinha talheres, para evitar que os presos cometessem o suicídio”.
Em seu primeiro dia, um dos soldados viu que ele era novo na prisão e perguntou ao seu superior: – Doutô, e esse elemento que chegou a noite passada, tem direito ao café?”
– Dê café a ele, que aqui a gente não mata de fome não, a gente mata é no pau. Falou, ironicamente, o superior.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro