1 de abril de 2014 às 09h18min - Por Mário Flávio

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Por Tâmara Pinheiro – Do livro: Relatos da ditadura em Caruaru – Histórias que os livros não contam

A história que une Edson ao golpe começou cedo. No ano quando os militares tomaram o poder, ele tinha apenas 14 anos. Suas lembranças ainda são muito vivas daquela época. “Na década de 1960 a família era muito diferente da de hoje. O adolescente daquela época era infantil, muito mais ligado à família e que tinha muito obediência e respeito à hierarquia familiar.

Para o menino Edson Costa Siqueira, a família era seu maior exemplo. Caruaruense, nasceu no dia 27 de agosto de 1950. Filho do policial militar Luiz Alves de Siqueira e da dona de casa Maria de Lourdes Costa de Siqueira, Edson era uma criança que seguia os costumes da época.

Muito ligado ao seu pai, o acompanhava sempre que podia ou quando não estava estudando. Seus primeiros registros no histórico escolar foram na Escola Santa Inês e no Grupo Escolar Pedro de Souza. Em seguida, estudou no Colégio Diocesano, e no Colégio Estadual, todos em Caruaru. Também trabalhou com o pai, – que foi comissário em diversos bairros de Caruaru, como Salgado, São Francisco além de outras cidades do interior -, exercendo o cargo de escrivão.

Como o patriarca da família era policial, todos em sua casa viviam sob um regime de muita autoridade.

“Meu pai nos criou sob regras muito sérias, em um sistema bem fechado, de obediência, a ponto de muitas vezes a gente não ter nem como argumentar. Isso porque uma decisão de um pai, de uma mãe, de um professor, era lei e acabou. Então, até 1964 minha vida foi bem simples, bem regrada”.

Além do seu pai, Edson também tinha outras pessoas as quais admirava. Quando criança, quem fazia aquela clássica pergunta “O que você quer ser quando crescer?”, ouvia do menino Siqueira a resposta “Quero ser juiz.” Essa vontade nasceu a partir da sua convivência com o juiz Amaro de Lira e César, amigo de seu pai. Frequentador da casa do juiz, Edson nutriu grande admiração pela profissão.

“Achava que a figura de um juiz era uma coisa muito especial, muito sublime, era uma autoridade inquestionável”. Como parâmetro político, a grande lembrança que Edson tem em sua memória, durante a infância é da figura do então governador de Pernambuco, Miguel Arraes. Arraes governou Pernambuco de 1962 a 1964 quando foi deposto, preso e, posteriormente, exilado pelos ditadores. Tornou-se importante figura do movimento de resistência contra o Golpe Militar.

Arraes fazia visitas esporádicas à Caruaru e fora da rotina prevista para o chefe do poder Executivo do Estado. Muitas vezes, quando a polícia ou os políticos da cidade sabiam da presença do governador, este já se encontrava muito à vontade pelas ruas, como recorda Edson: “Muitas vezes nós estávamos em casa e o tenente Oscar Porfírio, que na época (1963) era delegado daqui, chegava lá em casa, batia na porta convocando meu pai para vestir a farda e ir o mais rápido possível porque o governador estava na cidade”.

O menino acompanhava o pai que ia fazer a segurança de Arraes. E a cena que tem registrada em sua memória é de uma pessoa que não se importava com nenhum aparato para acompanhá-lo. “Geralmente, encontrávamos o governador perto do Mercado de Farinha, na feira livre de Caruaru, provando fumo de rolo. Ele amassava o fumo na mão, botava numa seda, fazia o cigarro e fumava”.

Mesmo com a chegada da polícia, Miguel Arraes fazia pouco caso: “O oficial se apresentava, ele ria e respondia que tava dando só uma ‘passadinha’. Depois é que chegavam os políticos daquela época e iam em uma comitiva por toda a feira”.

Essa atitude despretensiosa do então governador de Pernambuco foi fator importante para que Edson gostasse de política e admirasse Arraes. “Esses fatos me trazem lembranças muito boas, porque a partir deles eu comecei a ver a figura do governador como um homem do povo, sem precisar de nenhum aparato militar para aparecer e fazer suas atividades”.

Dilema da juventude: diversão ou protesto?

Mesmo sendo ainda um adolescente quando o golpe se concretizou, entre os dias 31 de março e 1º de abril de 1964, Edson já começou a sentir as diferenças de um governo democrático para um ditatorial. Por causa da profissão de seu pai, policial militar, ele lembra a grande movimentação desta classe ao saber da tomada do poder federal pelos militares, em todo o Brasil.

“Lembro que ao saber que o quartel do Derby, em Recife, principal poder militar do estado, havia sido invadido pelo exército, o então delegado de Caruaru, capitão Oscar Porfírio, reuniu seu destacamento, incluindo meu pai, para armar uma resistência. Então meu pai foi na nossa casa, que era em frente à delegacia, na Rua São Cristóvão, pegou o fuzil, vestiu a farda e foi ficar de prontidão na delegacia”.

Todavia, um dia depois de armada a resistência em Caruaru pelos policiais militares, um oficial do exército veio avisar da veracidade e das consequências nacionais que o golpe já trazia. “O oficial foi falar com o delegado, e outros soldados ficaram nas imediações, nas ruas Três de Maio e 27 de janeiro. Foi informado que o governador tinha sido deposto, que o país já tava dominado pelas forças armadas e que o próprio presidente João Goulart já tinha fugido para o Uruguai. Naquele momento, percebeu-se que qualquer reação seria loucura. Isso fez com que o delegado reunisse novamente o destacamento e de bom senso, desistiu da resistência”.

Mesmo com esta lembrança, o Golpe Militar ainda não tinha despertado totalmente Edson para a política. No começo, o golpe contou com o apoio de diversos setores da sociedade, como a elite e a Igreja Católica, que via nesta ação do exército uma forma de combater o comunismo ateu. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi um exemplo de ação que demonstrou o pensamento de muitos brasileiros, a maioria católica, que acreditava que o comunismo era contrário a práticas religiosas.

A marcha foi organizada por políticos e religiosos e foi usada como reposta ao comício realizado pelo então presidente João Goulart, que promoveu as reformas de base. O comício ocorreu dia 13 de março de 1964, poucos dias antes do golpe militar, na cidade do Rio de Janeiro. Já um dia após a queda de Jango, no dia 2 de abril de 1964, cerca de um milhão de pessoas saíram às ruas do estado da Guanabara, na Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

“Na época, os comunistas eram, em sua maioria, ateus. O que eu percebi era que a maioria das pessoas de Caruaru, principalmente as mais ricas e católicas estavam mais felizes, pois agora não se corria o risco de os comunistas tomarem conta. Quem estava no comando, agora, era uma força militar, que respeitava os costumes religiosos. A sensação que eu tinha, o que eu observava é que a maioria da população estava mais tranquila, mas feliz com o golpe”.

Já em 1966, cursando o Ensino Fundamental II, antigo ginásio, a ditadura ficou mais presente na vida de Edson Siqueira. A maior das dificuldades eram reunir os amigos. Naquela época, era comum os jovens se encontrarem na casa de algum amigo, ouvir músicas na vitrola e tomar uma bebida chamada Cuba Libre, feito de rum com coca-cola. Mas, para os militares, qualquer reunião com mais de três pessoas podia ser considerada conspiração contra o governo militar.

“Se alguns colegas estivessem conversando qualquer coisa, besteiras de adolescentes, chegava alguém e procurava saber o que era que a gente estava conversando. A gente não conhecia a pessoa, mas sabia que era alguém ligado ao Exército. Isso foi se agravando com o tempo”.

Outros fatores fizeram com que o jovem e seus amigos pudessem sentir a repressão da ditadura. A obrigatoriedade de comemorar dias como Dia da Bandeira e do Soldado, além da censura foram decisivos para que Edson escolhesse por se posicionar politicamente contra o governo federal.

“Eu era assinante do jornal Pasquim e tinha muita dificuldade de adquirir os exemplares. Quando eles traziam alguma coisa que o governo não aceitava, não chegava às nossas mãos. Com isso, começamos a refletir o porquê daquela situação, porque não se podia mais escolher um governador do estado, um presidente, teriam que ser todos nomeados pelo governo militar. Isso foi nos levando a reagir”.

A partir de 1968, Edson Siqueira resolveu entrar para um movimento contra o governo militar. Junto com alguns colegas, começaram a organizar manifestações e ações, como reuniões e pichamentos, a fim de alertar a população para as mudanças na política brasileira. Em Caruaru, esse movimento contra o governo militar ainda era uma opção para a minoria dos jovens.

“Existia uma distinção entre classes sociais. Nós, que éramos da classe média começamos a perceber, a sentir a repressão. Já os jovens da elite, estavam mais preocupados com suas lambretas”.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro