20 de agosto de 2013 às 01h26min - Por Mário Flávio
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Secretário de Ciência e Tecnologia participou de Fórum de TI em Caruaru – BMF Imagens

Em visita a Caruaru na semana passada, o secretário de Ciência e Tecnologia em Pernambuco, Marcelino Granja, concedeu entrevista ao blog para analisar os desafios de otimizar atividades ligadas à Tecnologia no interior de Pernambuco, tema que ele debateu durante o 1° Fórum de Tecnologia da Informação, promovido pela Associação Comercial e Empresarial de Caruaru (Acic), na sexta-feira (16). Para o secretário, é necessária uma relação interligada entre poder público, setor empresarial e infraestrutura acadêmica, a fim de estabelecer um ambiente de gestão inovação constante para o interior do estado. Ele cita ainda o modelo do Porto Digital como referência prática para a modernização tecnológica a partir da Região Metropolitana de Recife.

Quais são as possibilidades de modernização para de infraestrutura tecnológica para o interior de Pernambuco?

Bom, são muitas e estamos animados. Apesar das dificuldades, temos avançado muito nos últimos anos. Há um consenso na sociedade de que é preciso o país crescer mais rapidamente, diferente das décadas de 1990 e 2000, em que não havia uma discussão maior sobre investir em renovação de tecnologias. Hoje em dia o debate é como fazer com que essas coisas aconteçam. O problema é que o crescimento do país encontrou carência principalmente em problema de mão de obra qualificada, que remete a Educação, a Ciência, e Inovação. Mas há um esforço grande de correr contra o tempo para que essa infraestrutura seja mais qualificada, e começa justamente com a formação de pessoal, depois vai para qualidade infraestrutura de Ciência e Tecnologia, até a infraestrutura de Comunicação. Na verdade, nos últimos anos tivemos uma interiorização significativa do Ensino Superior pelo país inteiro, assim como em Pernambuco. UFPE e UFRPE saíram do Recife para o interior. Foi criado um Instituto Federal no Sertão. A nossa UPE tem vivido uma expansão forte no interior, mais recentemente com o programa PROUPE, que concede bolsa às 13 autarquias municipais de Ensino Superior espalhadas nas 12 microrregiões do estado, e já atende a 9.500 estudantes no estado. Com essa expansão da academia do ensino superior, foi possível, inclusive, criar incubadoras em Caruaru, Serra Talhada e Petrolina, ambientes de inovação que recebem incentivos do estado. Vamos também criar condições para criar um programa de incentivo fiscal, a fim de usar o poder de compra do estado para estabelecer uma infraestrutura de rede terrestre de telecomunicações de alto nível nas vilas e distritos rurais com mais de mil habitantes, viabilizando telefonia móvel, acesso à tecnologia 3G e à internet. São essas iniciativas que criam uma situação de animação, pois a interiorização da Ciência e Tecnologia terá como resultado uma melhoria dos processos inovadores nos arranjos produtivos do interior do estado.

Com essa expansão da academia do ensino superior, foi possível, inclusive, criar incubadoras em Caruaru, Serra Talhada e Petrolina, ambientes de inovação que recebem incentivos do estado

O senhor toca nessa questão de interiorização e formação qualificada, mas já entrei em contato com profissionais que atuam em setores ligados à Tecnologia da Informação e Economia Criativa, inclusive saídos do Campus da UPE, e que reclamam de dificuldades para arranjar espaço no mercado de trabalho. Uma das reclamações é de que nem todos sairiam para o mercado totalmente preparados por falta de professores e infraestrutura física adequada. Como isso estaria relacionado à secretaria de Ciência e Tecnologia, a fim de minimizar esse tipo de carência?

A universidade [UPE] é autônoma. Aspectos político-pedagógicos do curso competem à instituição. Mas a universidade estadual não está sozinha e interage com outros agentes, como prefeitura, empresários e o próprio governo do estado. Na medida em que essas críticas, que partam de alguns estudantes – e não sei se é própria e a que aspecto estaria diretamente relacionado – é preciso discutir abertamente soluções. Se é um problema político-pedagógico, que não atende o perfil de mercado, deve ser debatido para que o conselho universitário altere isso. Problemas relacionados à estrutura são menores, pois a universidade hoje não tem campus próprio, mas está em vias de tê-lo. Não podemos esperar a condição ideal. Se fosse para esperar isso, não teríamos nem a UPE nem a UFPE. Nenhuma começou grande, nem forte, nem com tudo pronto. Temos que começar começando. Então, provavelmente é um perfil do curso, se for isso, é preciso que a universidade faça esse debate com urgência para mudar ou alterar o projeto político-pedagógico.

Isso leva a outro questionamento, dos quais eu tomei conhecimento principalmente de estudantes de Sistemas da Informação, de que o mercado local e regional não possui um perfil que atraia profissionais ligados à Tecnologia da Informação ou a Economia Criativa. É possível mudar esse cenário? Pelo que o senhor conhece do perfil de Caruaru e Agreste, é possível que essa região se torne um polo de Tecnologia da Informação?

Pode, a tendência é que esses grandes centros comerciais, e que ao mesmo tempo tem uma grande atividade industrial, assim como um grande polo comercial, também se tornem polo no setor de serviços. Nesse aspecto, Tecnologia da Informação é algo transversal ao conjunto de atividades no setor de serviços. Evidente então que há demanda nesse sentido. É preciso estudar como o comércio e a indústria local estão absorvendo os profissionais nessa área. Se a formação propicia a produção de profissionais de que o mercado precisa. Mas, se há bons profissionais formados para o setor e o mercado não quer, é algo que ultrapassa fronteira do poder público. Nesse caso, é possível provocar, criando mecanismos mais eficazes de identificar sistemas locais de inovação, aportando recursos para esses sistemas, que a gente faz, por exemplo, através do Itep, junto ao setor de confecções, para melhorar a própria governança do sistema empresarial, a fim de que os empresários sejam mais dispostos a gastar recursos, investir na contratação de pessoal qualificado e melhorar a competitividade do seu produto e negócio. Então, é uma questão mais complexa, que perpassa por uma vontade e nível de compreensão do empresariado para apostar em tecnologia da informação.

Mas, na sua avaliação, no interior, tanto em cidades do Agreste, ou no Sertão, elas têm se adaptado bem a essa modernização tecnológica, ou passa por falta de vontade política local, ou resistência do empresariado regional para investir em tecnologia?

Não é falta de vontade, nem resistência, talvez ainda não tenhamos um ambiente de visão mais clara do que fazer para investir nisso. Eu comentava com o presidente da Acic que as prefeituras possuírem secretarias de Desenvolvimento Econômico é algo recente, algo de 10 ou 12 anos. Geralmente, essas pastas não são as principais secretarias. Claro que não é culpa do prefeito se não essa secretaria nos municípios – não é o caso de Caruaru, que possui a pasta – ou se o departamento não possui toda a autoridade possível para ser estratégica, depende também da sociedade, através de um processo de debate que envolva todos. Esse debate promovido pela Acic sobre o impacto de TI no ambiente de inovação é um esforço dos empresários para o qual comparece o poder público, juntando as duas pontas. Então acredito que falte uma compreensão mais aguda… no Brasil considero que ainda estamos atrasados no entendimento da necessidade de ter Ciência e Tecnologia da Informação como algo que faça parte do dia-a-dia de toda a sociedade.

Não haverá um ambiente de inovação virtuoso, sem competências acadêmicas elevadas e sem uma política pública que tente juntar isso com a atividade empresarial

É possível tomar como base iniciativas como o Portomídia e estabelecer estruturas similares no interior, aqui no Agreste, por exemplo, mas com uma proposta de desenvolver um centro tecnológico voltado para o polo de confecções regional, que é a base comercial em Caruaru?

Há, sim. O Portomídia é uma iniciativa do Porto Digital. O que é o Porto Digital: é um parque tecnológico, um habitat de inovação, no qual existem empresas articuladas, uma atividade acadêmica de alto nível, que gera conhecimento e tecnologia e política pública que visa juntar tudo isso, para dar valor a atividade econômica a partir da incorporação de investimentos no que há de mais moderno. No caso de Recife, na área de software, que agora se estende para Economia Criativa. Então o que existe lá é uma política pública cujo negócio é gestão da inovação, através de um contrato de gestão do Núcleo de Gestão do Porto Digital, com o governo de Pernambuco. É um modelo e como tal é importante referência. E se tornou assim porque se espelhou em modelos clássicos de adensar cadeias para dar valor com incorporação ciência e tecnologia a processos de produtos, nos Estados Unidos e Europa. O exemplo do Porto Digital pode, sim, ser trazido para qualquer outro local.

Mas, aí cai novamente na questão da visão ou nível de compreensão que o senhor citou antes?

A visão talvez já tenha. Percebo que as pessoas tocam no assunto. É preciso conhecimento mais profundo de oportunidade. Não haverá um ambiente de inovação virtuoso, sem competências acadêmicas elevadas e sem uma política pública que tente juntar isso com a atividade empresarial, juntar isso é o que pode estar faltando.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro