Enfermeira diz que médico pediu cartão de vacina em branco para mulher de Mauro Cid

Lucas Medeiros - 10.05.2023 às 19:55h

Do Metrópoles

(Imagem: Reprodução/ Metrópoles)
(Imagem: Reprodução/ Metrópoles)

A enfermeira Dzirrê de Almeida Gonçalves, que aparece como a responsável por aplicar a segunda dose no primeiro cartão de vacinação falso da esposa de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), afirma que o médico Farley de Alcântara chegou a pedir um cartão de vacinação em branco no dia 25 de novembro de 2021.

Ao Metrópoles Dzirrê alegou que teve o nome usado. “Meu nome foi usado no cartão por outra pessoa. Fiquei sabendo do ocorrido como todos, pelas redes sociais e pela imprensa. Foi um baque para mim, um susto muito grande. Ele chegou a me pedir um cartão de vacina em branco, em novembro de 2021; na ocasião eu disse que não tínhamos, e a conversa se encerrou por ali. Depois disso, nunca mais tivemos contato”, afirmou a enfermeira.

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Farley e Dzirrê trabalhavam na rede pública de saúde da cidade de Cabeceiras, no Entorno do Distrito Federal (DF), onde a mulher teria sido supostamente vacinada. A Secretaria de Saúde do município aponta diversos erros no documento; entre eles, um nome errado, lotes divergentes e até mesmo a caligrafia.

O diálogo entre os dois aconteceu 15 dias após o médico Farley de Alcântara conseguir um cartão de outra pessoa que havia se vacinado com duas doses de um imunizante contra a Covid-19 e teria recebido a segunda vacina das mãos de Dzirrê de Almeida Gonçalves. No entanto, as apurações da Polícia Federal apontam que, depois da primeira fraude em papel, os investigados teriam decidido lançar a vacinação no sistema do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro.

Como o imunizante do cartão impresso era de um lote de Goiás, enviado para a cidade de Cabeceiras, e não um lote remetido pelo ministério para a cidade de Duque de Caxias (RJ) – onde a fraude on-line teria ocorrido –, o médico teria ido em busca de um cartão em branco para inserir uma anotação da vacina com lote da cidade fluminense.

De acordo com fontes da PF, foi por isso que Farley de Alcântara teria procurado a enfermeira para pedir o cartão em branco. As investigações ainda não confirmaram a origem do documento que no fim teria sido usado como modelo para inserir as duas doses de vacinação de Gabriela Santiago Ribeiro Cid, esposa de Mauro Cid.

Farley Vinícius de Alcântara é sobrinho do sargento do Exército Luiz Marcos dos Reis, que integrava a equipe de Mauro Cid e que foi preso na quarta-feira da semana passada, durante a Operação Venire, deflagrada pela Polícia Federal.

Ainda ao Metrópoles a enfermeira negou qualquer participação no esquema fraudulento. “Eu trabalho há quase cinco anos no município, frente à coordenação da Unidade Básica de Saúde, e algo assim nunca aconteceu. Prezo muito pelo meu nome, e minha ética. Eu e a outra profissional cujo nome aparece no cartão não temos nada a ver com o ocorrido”, ressaltou Dzirrê.

Dzirrê alega que, até o momento, não foi procurada pela polícia nem recebeu qualquer tipo de intimação. Ela afirma ainda que Farley “era livre de qualquer suspeita”.

A investigação que deu origem à Operação Venire, deflagrada na quarta-feira (03) pela Polícia Federal (PF), identificou a formação de uma associação criminosa para inserir dados falsos de vacinação contra a Covid-19 nos sistemas SI-PNI e RNDS, do Ministério da Saúde. O objetivo era beneficiar várias pessoas ligadas ao círculo próximo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, as inserções falsas alteraram a condição de imunização contra a Covid-19 dos beneficiários e, com isso, as pessoas podem ter burlado restrições sanitárias impostas pelas autoridades do Brasil e dos Estados Unidos.

De acordo com o prefeito de Cabeceira, Everton Francisco, conhecido como Tuta, alguns profissionais de saúde serão ouvidos no procedimento administrativo aberto pelo Poder Executivo para investigar o caso e identificar se realmente houve a fraude por parte do médico e, se sim, descobrir se ele teve ajuda para cometer o crime. As enfermeiras que tiveram os nomes usados no cartão de vacina devem ser ouvidas.