O eleitorado evangélico de Pernambuco se consolidou como um dos segmentos de maior peso nas disputas eleitorais do estado, mas está longe de formar um bloco político uniforme. Segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os evangélicos representam 25,2% da população pernambucana, o equivalente a cerca de 1,97 milhão de pessoas. O tamanho desse contingente faz com que candidatos aos cargos do Executivo e do Legislativo intensifiquem a busca por aproximação com igrejas e lideranças religiosas, especialmente pela capacidade de mobilização e pelas redes comunitárias construídas nos templos. Com informações do Diario de Pernambuco.
Para o cientista político Alex Ribeiro, porém, a estratégia eleitoral precisa ultrapassar o período de campanha e evitar abordagens baseadas exclusivamente no discurso religioso. Segundo ele, as candidaturas que encontram maior receptividade são aquelas que demonstram respeito às diferentes expressões da fé e apresentam propostas concretas para problemas enfrentados pela população. Ribeiro também destaca que não existe um “voto evangélico” único. Fatores como denominação religiosa, condição socioeconômica e região de moradia interferem nas escolhas. Na Região Metropolitana, temas como segurança, saúde, transporte e emprego tendem a ganhar maior relevância, enquanto no interior a proximidade entre lideranças religiosas, políticas e comunitárias pode ter influência mais direta.
A figura dos pastores continua tendo importância nesse processo, mas o poder de orientação dos púlpitos passou a dividir espaço com as redes sociais, influenciadores digitais e a avaliação individual dos eleitores sobre a realidade política. O cientista político Hely Ferreira aponta que existe entre parte desse eleitorado uma tendência de acompanhar orientações de lideranças religiosas. Já Ribeiro avalia que, embora um pastor possa fortalecer determinada candidatura, dificilmente consegue, sozinho, determinar o resultado de uma eleição. A universitária Iasmin Luz de Paula, criada em uma família evangélica, demonstra cautela com a mistura entre religião e política dentro dos templos. Ela relata ter presenciado, desde a infância, situações em que candidatos buscavam votos após cultos e afirma defender a participação dos evangélicos na política, mas sem que o ambiente religioso seja utilizado para pressionar os fiéis.
Embora exista historicamente uma maior identificação do eleitorado evangélico com candidaturas de direita, sobretudo nas eleições presidenciais, esse alinhamento pode ser menos rígido na política estadual. De acordo com Alex Ribeiro, fatores como avaliação da gestão, segurança pública, políticas sociais, emprego, combate à corrupção e melhoria das condições de vida podem aproximar esse eleitorado de candidatos de diferentes campos políticos. Pautas relacionadas à defesa da família, valores e costumes também permanecem relevantes, segundo Hely Ferreira. Para o professor de história Diogo Xavier, debates como aborto e homossexualidade ganharam espaço em comunidades evangélicas especialmente a partir da associação dessas questões a uma percepção de ameaça aos valores tradicionais. O cenário, portanto, revela um eleitorado numeroso e politicamente relevante, mas formado por diferentes realidades e prioridades — o que torna a tentativa de tratá-lo como um grupo eleitoral uniforme uma estratégia cada vez mais limitada.
