23 de junho de 2013 às 10h25min - Por Mário Flávio

No ano em que nasci surgia essa canção. Que veio a tornar-se hino na luta contra a Ditadura Militar brasileira. Caetano retrata nela muito bem, cultura e politicamente o que se desenrolou na década de 60. E me perguntam antes: você vai protestar contra quem ou o que? E você não está na gestão? Como vai ser contra a quem você ajudou a eleger?

Cresci e fortaleci meu caráter de luta nas caminhadas desde adolescente, tendo oportunidade de participar em 80 das “Diretas Já” com Tancredo Neves aqui em nosso município, numa grande mobilização com Caio Fábio em Brasília em 90, e nas décadas seguintes em várias marchas do MST e em todas as marchas, protestos e ocupações do MTST, em Pernambuco ou fora do estado. Em várias delas correndo risco de morte.

Neste sábado eu fui!

Primeiro a fé no Deus que eu sirvo não me prende aos grilhões da escravidão de uma religião que me deixa à margem do caminho. Antes ela é libertária, e compreende a dor do outro como se fosse em mim. Primeiro agiu em mim me reconciliando com o Criador e me levando a ter uma nova relação com sua criação e criaturas. Ele me deu uma nova consciência ao ponto que essa “mudança de vida” não vai se expressar na aparência esquisita e sim em atitudes. Assim, se antes eu poluía, agora eu preservo, se agia com violência agora pratico o diálogo, se pensava só em acumular pra mim agora eu conscientemente faço a opção de dividir. Em minhas limitações estarei mais aberto para ouvir e aprender com o outro, não me colocando a cima nem melhor que ele.

Fui solidário aos milhares feitos milhões nas cidades do país. Essa onda crescente ainda vai crescer um pouco mais e, conseqüentemente, também trás consigo a conta de muito estrago, em dano ao patrimônio público, gestos mais exaltados por parte de quem não agüenta mais viver na pele tanta injustiça (consigo ou com o próximo) ou, da força estúpida e desumana, quando não despreparada, de policiais não vocacionados. A raiva contida, o ódio, o desgosto reprimido não devia, mas acaba sendo também externado nessa hora. Se há quem faz isso de forma orquestrada ou por maldade é outra questão, que não vou me ater agora.

Compartilho, na minha realidade local, do descontentamento nacional do que ainda não foi conseguido. Se em muitos pontos na última década houve melhoria na vida das camadas mais carentes da população não posso deixar de considerar que precisamos avançar mais em questões como Moradia Digna, Justiça Social, Saneamento Básico, Melhorar a distribuição de renda, Educação melhor, Preservação ambiental, Cidadania, Saúde, e por ai se vai. E não venham me dizer que a passeata se propõe a ser especificadamente contra isso ou aquilo, ou contra alguém, se eu entender que está assim, eu saio. Mas nada impede que nela estejam pessoas com essa intenção, pois é na soma que ganhamos, não na subtração.

Digo isso por entender que o clamor é mais amplo e mais profundo. Por isso está arregimentando tanta gente às ruas. Na realidade não há motivo para não sair, por isso eu também não concordo em dizer que não aceita-se bandeiras de partidos, sindicatos ou ONGs, políticos que queiram ir com sua família (os que tiverem vida pública integra). Pois quando eu olho aquela multidão eu penso que está ali o aluno que reclama melhor educação, mas também o professor melhores condições (incluindo a sagrada e heróica luta dos docentes daqui pelo PCC); vejo mães que perderam seus filhos e lutam na justiça para que os responsáveis sejam punidos; vejo sem tetos, sem terras, sem direitos, sem emprego, sem médicos, mas de esperança renovada. Há quem não goste de seu gestou seja em que esfera for, mas o que se cobra é bem mais imenso.

Há uma nuvem nebulosa e que não cheira bem que insiste em pairar no ar. A ambição, a cobiça, o orgulho, o egoísmo, a prepotência, a vanglória, a soberba, a desumanidade, a crueldade, a falsidade, a busca desenfreada do prazer pelo prazer, a vulgarização do outro, o desrespeito a lei exatamente por quem deveria cumpri-la, o abuso da força bruta e de autoridade de quem deveria estar a serviço da ordem e da segurança, a opressão dos que mais tem sobre os que pouco possuem, isso deveria nos levar a dar a “meia-volta”, primeiro nos examinando e depois mudando de atitude. A corrupção principalmente dos políticos nefastos, os vícios dos comerciantes e empresários gananciosos que vivem de lucros exorbitantes – por falar nisso, a redução de impostos parece ser um esforço do Governo Federal em ajudar a diminuir a passagem dos coletivos, mas dos empresários pode-se esperar um gesto de sacrificar-se reduzindo sua margem de lucro?

Estive ao lado dos que estão descontentes com toda forma de manipulação existente, seja da imprensa, de líderes eclesiásticos ou políticos, por REFORMAS no segmento urbano, agrário, político. Por uma nova FORMA de viver em sociedade que sofre DEFORMADA, até pela inércia dos CONFORMADOS, e a este o recado é “TRANSFORMAI-VOS” e lutai!

Só pode haver transformação de atitude se houver consciência do erro, confissão e arrependimento sincero.

A imagem de policiais em Recife segurando uma faixa em solidariedade aos que marcham me traz a memória os que em outros locais usaram suas armas e fuzis contra manifestantes, a estes eu espero que baixem seus fuzis, junte-se a gente. Políticos desonestos e prepotentes, ainda é tempo, tirai vossos palitós e gravatas desnudando-se da arrogância. Basta de tirania, de acordos escondidos e nojentos. Haja uma busca por justiça, respeito e verdade. Não vamos esperar que o ódio se inflame mais, que o caos se instale de um modo que não se consiga voltar para trás.

Olhos orvalhados, como de tantos que observei. Pude caminhar entre todos os blocos e abraçar emocionado, entre tantos, velhos caminhantes como Reginaldo Melo e novos como Joana Figueiredo. As duas filhas mais velhas minhas uma não pode ir (estava enferma) a outra foi.
Assim como na canção, fui de vermelho, “Eu quero seguir vivendo, amor / Eu fui… Por que não, por que não…

*Paulo Nailson é dirigente político com atuação em movimentos sociais, Cursa Serviço Social. Membro da Articulação Agreste do Fórum de Reforma Urbana (FERU-PE) e Articulador Social do MTST. Edita a publicação cristã Presentia. Foi dirigente no PT municipal por mais de 10 anos.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro