29 de novembro de 2011 às 18h55min - Por Mário Flávio

Porque não serei candidata a vereadora:  amar e mudar as coisas me interessa mais.

Nascida em Caruaru no ano de 1983, mudei-me para Recife em setembro de 2000, para cursar Direito na Universidade Federal de Pernambuco. Nos anos de Faculdade, engajei-me no Movimento Estudantil, filiei-me ao PT e fui eleita Vice-Presidente da União Nacional dos Estudantes. Em 2007, voltei à minha terra natal, decidida que no coração do agreste pernambucano poderia contribuir com uma pulsante nova cultura política, menos pautada nos indivíduos e no poder econômico, mais voltada ao bem comum e à garantia de direitos.

Em 2008, encabecei uma candidatura “diferente” à Câmara de Vereadores. Movida por sonhos, juventude, politização e rebeldia, nossa campanha arrematou 1.990 votos espontâneos e conscientes. Serei eternamente honrada pela confiança de cada uma dessas pessoas nesse projeto. Sinto orgulho também por poder afirmar publicamente, sem medo de qualquer objeção, que nenhum benefício individual foi ofertado: nem emprego, nem estágio, nem bolsa, nem cesta básica, nem os famosos R$ 30,00 para a “”militância de boca de urna””. Não foram votos suficientes para a conquista do mandato, mas nos outorgaram força política e respeito público suficientes para com a confiança do PT e do Prefeito eleito José Queiroz, ser empossada Secretária Especial da Mulher, aos 25 anos.

Em uma pequena Secretaria estreante na máquina municipal, majoritariamente composta por jovens petistas, mostramos que nosso barulho tinha base sólida e objetivo claro. Com foco em tornar visíveis pautas e setores historicamente excluídos, debatendo e praticando participação e inclusão social, estabeleceu-se um bom diálogo com o conjunto da gestão municipal, estadual e federal e pudemos implementar ações marcantes, numa relação diferenciada entre o poder público e o povo.Nesse contexto, acrescido à mais espaço na Câmara e no PT, muitos esperam – e o mais óbvio seria – uma nova candidatura à vereadora. Viemos, mais uma vez, negar o óbvio.

Não serei candidata a vereadora no ano que vem porque pessoalmente não tenho disposição para me submeter à cultura vigente nesse processo eleitoral. E porque politicamente, o grupo de que faço parte avalia, no que concordo, que temos a possibilidade de construir a sociedade e a política com que sonhamos através de outros instrumentos de luta, não apenas através da Câmara. Esses outros instrumentos, como a experiência que temos na gestão executiva, como a militância partidária, os movimentos sociais, demonstram-se, nesse momento, menos congestionados e mais produtivos.

A disputa eleitoral no sistema de voto nominal, de financiamento privado de campanha, de assistencialismo e força econômica, faz um ambiente em que as grandes questões públicas ocupam menos tempo que a disputa de espaço. Por mais que seja possível fazer um mandato diferente, e há exemplos significativos pelo país, (ainda) é inevitável estar cercado por uma lógica de eleição como fim e não como meio.

Não tenho, pessoalmente, disposição para investir minha vida nesse tipo de disputa, em que o debate de ideias tem papel secundário, em que os partidos se conformam pela matemática e não pela história, em que o poder é usado para privilégio no serviço público e não sua universalização. Admiro os que, com firmeza ideológica, suportam essa batalha.

Também não venho aqui apontar culpados, essa tarefa fácil de quem não se movimenta. Mais que mudar os políticos, é preciso mudar a política. E ambos, políticos e política, dependem de uma nova consciência dos cidadãos que os escolhem. Estamos convictos de que a elevação desse sistema a um patamar mais participativo, transparente, coletivo depende de muito mais que esse possível mandato, embora saibamos que é necessário que lutemos em todas as trincheiras e que o mandato de vereança pode sim contribuir.

Contudo, não são as mesmas pessoas que devem desempenhar todas as tarefas. Preferimos concentrar nossas forças no trabalho que estamos executando na construção da Juventude do PT, na gestão da Secretaria da Mulher, na luta do campo da esquerda brasileira que mobiliza o povo excluído e governa Brasil, Pernambuco e Caruaru.

Queremos é que surjam em nossa cidade mais e mais pessoas e grupos, petistas, de esquerda, socialistas, artistas, trabalhadores, camponeses, mulheres que ocupem seu pedaço onde têm direito como povo, inclusive na Câmara Municipal, contribuindo para mudar nosso sistema. Mas nós preferimos investir tempo, energia e ideias em lugares que talvez não representem tanto o poder, esse em disputa tão tensa, mas vão construindo aos pouquinhos, com arte e de mãos dadas, uma outra lógica de poder, que vê no espaço público a realização de uma ordem justa e favorável à maioria, à democracia como poder compartilhado.

Não sou candidata a vereadora, mas sigo, aqui de Caruaru, militante de um outro mundo possível. Como cantou Belchior, amar e mudar as coisas me interessa mais.

    Louise Caroline, novembro de 2011

 


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro