As estratégias de Raquel e João e o Congresso da Amupe

Mário Flávio - 27.04.2026 às 05:33h

O que a gente começa a ver com mais clareza agora é o desenho real da disputa pelo Governo de Pernambuco tomando forma nas ruas — e não apenas nas pesquisas ou nas articulações de bastidor.

E é interessante observar como a governadora Raquel Lyra buscou um símbolo muito forte para marcar essa virada de chave na estratégia: o mercado público. Não foi à toa.

Quem conhece a história política de Jarbas Vasconcelos sabe que ele construiu boa parte da sua conexão popular justamente nesses espaços. Mercado não é só comércio — é conversa, é termômetro social, é onde a política acontece de forma mais espontânea. E Raquel, ao tomar café no Mercado da Encruzilhada, não estava apenas cumprindo agenda. Estava mandando um recado.

Um recado de que quer ocupar o território simbólico da política mais próxima, mais popular, mais direta. E isso vem acompanhado de um movimento estratégico bem calculado. Depois de alguns dias no interior — inclusive com o gesto importante de ir a Petrolina consolidar apoio da família Coelho — a governadora muda o foco para a Região Metropolitana.

Não é coincidência. É matemática eleitoral. A Região Metropolitana concentra mais de 40% do eleitorado pernambucano. E mais: é justamente onde o adversário, o ex-prefeito João Campos, tem sua maior vantagem. No Recife, por exemplo, a diferença é larga, como mostrou o último Datafolha.

Ou seja: Raquel está indo onde precisa crescer. E isso é política na sua essência mais pragmática. Ao mesmo tempo, João Campos faz o movimento inverso — mergulha no interior. E também não é por acaso. É lá onde ele ainda precisa se consolidar, onde sua imagem ainda está em construção fora da capital.

E aí entra um ponto importante: os dois estão jogando o mesmo jogo, mas em campos diferentes. Raquel tenta reduzir a vantagem de João na Região Metropolitana, enquanto João tenta diminuir a diferença no interior. É quase um movimento de espelho.

Só que tem uma diferença de estilo que começa a aparecer. Raquel aposta em agendas presenciais, em contato direto, em ouvir prefeitos, lideranças e formadores de opinião. A informação de bastidor é clara: ela quer intensificar essa presença no Grande Recife, ouvindo gestores e alinhando movimentos com os prefeitos aliados.

Já João Campos tem apostado muito na narrativa de gestão. Nas redes sociais, ele reforça entregas da Prefeitura do Recife, como o Hospital da Criança, unidades de saúde, obras de infraestrutura. Ele tenta transformar sua experiência administrativa em capital político estadual. Além disso, ele resgata o legado de Eduardo Campos e reforça a ligação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — o que também é um ativo importante, especialmente em determinadas regiões do estado.

Ou seja: enquanto Raquel trabalha o corpo a corpo, João trabalha o discurso de gestão e legado. E nesse cenário, um outro elemento entra com força nessa semana: o municipalismo.

O 9º Congresso da Associação Municipalista de Pernambuco deve se transformar em um grande palco político, mesmo sendo um evento institucional. Ali estarão prefeitos, técnicos, ministros, tribunais de contas, Supremo Tribunal Federal… É um ambiente de articulação pesada.

A presença de nomes como Flávio Dino e Antonio Anastasia eleva ainda mais o nível do debate e, principalmente, das conversas de bastidor. Porque, no fim das contas, eleição estadual passa diretamente pelos municípios. Prefeitos são peças-chave. Estrutura local, capilaridade, liderança regional… tudo isso pesa — e muito.

E esse congresso da Amupe vira uma espécie de vitrine e também de campo neutro para articulações. Então, quando a gente junta todos esses movimentos, o que aparece é um cenário cada vez mais competitivo e estratégico.

Raquel Lyra tentando ocupar espaços onde precisa crescer, com uma política mais presencial e simbólica.

João Campos expandindo sua presença no interior, apostando na força da gestão e no legado político.

E, no meio disso tudo, prefeitos, lideranças e eventos como o da Amupe funcionando como peças-chave nesse tabuleiro.

A eleição ainda está longe, mas a campanha — essa, já começou faz tempo. E agora, ela começa a ganhar rua, cheiro de mercado, poeira de estrada e, principalmente, densidade política de verdade. A conferir.