6 de novembro de 2015 às 13h14min - Por Mário Flávio

Foram poucas palavras. Após uma palestra realizada na Acic, na noite da quinta-feira (05/11), o ex-vereador de Caruaru Fernando Soares “Safadeza” cumprimentou o senador Douglas Cintra (PTB-PE). “Caruaru está bem representada no Senado. A política precisa de homens feito você”, comentou o ex-vereador. O petebista agradeceu pelas palavras e ressaltou a importância do interlocutor na história política do município. Sorrateiramente, realizei o registro fotográfico do momento e, ‘como quem não quer nada’, escutei um pouco da conversa. Não sei até que ponto a curiosidade é defeito ou virtude, mas sei que ela está impregnada em meu ser. 

Apesar do apelido atípico, Fernando “Safadeza” marcou Caruaru por ter enfrentado uma forte oposição enquanto vereador, no período da ditadura militar. Ele exerceu esse cargo em um tempo no qual os mandatos eram voluntários, mas desenvolveu esforços em prol da consolidação da democracia, em meio às intempéries políticas dos anos 60. “Safadeza” chegou a ter o mandato cassado na época. Inclusive, naquela mesma noite, o cientista político José Nivaldo Júnior comentara que o apelido do ex-parlamentar não lhe faz jus. “Ele devia ser chamado de Fernando ‘Integridade’. Isso sim”, testificou. 

Em 2013, a Câmara de Caruaru realizou uma solenidade restituindo o diploma de vereadores cassados pela ‘linha dura’. Mesmo assim, essa história ainda precisa ser resgatada com mais afinco. Essa é uma tarefa dos intelectuais, que devem se dispor a debruçar-se diante de tal assunto, mas também deve ter apoio do poder público. Somente com uma consciência do passado será possível compreender melhor o presente e traçar metas para o futuro. 

A presença e a história de homens como ele são carregadas de um simbolismo que necessita ser trazido à tona no tempo presente. Ora, no mesmo dia em que líderes se reuniram em Caruaru para debater caminhos de fortalecimento da democracia, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), defensor da ditadura militar, foi recebido com pompas de “mito” por um grupo de jovens no Recife. Indo além da situação pontual dos episódios – pois acredito que o contraditório é um dos pilares da democracia e deve ser respeitado –, acredito que ambos os episódios são emblemáticos e sintetizam um contexto da nossa sociedade. Portanto, é pertinente uma reflexão acerca da conjuntura política do Brasil, bem como da mentalidade da população.

Sabemos que a democracia é um sistema em construção, sobretudo no Brasil, cujo processo se deu a partir de 1988. O grande problema é que, durante esse processo, pouco ou quase nada foi feito para que a população construísse uma mentalidade democrática. A ditadura acabou, mas a ausência de punição garantida pela Lei de Anistia de 1979 fez com que o povo não percebesse, de maneira profunda, a mudança de paradigma. Apenas com a recente Comissão Nacional da Verdade – estabelecida mediante processo na Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA – é que algum tipo de compensação começou a aparecer. Mesmo assim, não é o suficiente para alterar a visão de mundo dos brasileiros.

O que se percebe, atualmente, é uma lógica ditatorial permeando as relações sociais. De um lado, a ‘direita’ bate panela, representando a negação do ouvir, o desejo de silenciar o oponente a todo custo. Do outro lado, a ‘esquerda’ também apresenta um discurso totalitário. Isso fica nítido quando há rotulações de ambos os lados. “Petralhas”, “coxinhas”, “homofóbicos”, “feminazis”. Toda rotulação é emburrecedora, pois anula a possibilidade do diálogo. É a famosa ‘técnica do espantalho’, ferramenta retórica que consiste na deturpação das ideias do adversário, tornando-o patético.

No momento atual do Brasil, faz-se necessário refletir acerca de temas estruturais. A reforma tributária, as taxas de câmbio, o modelo econômico, os rumos da Educação, da Saúde, da Segurança Pública. Para isso, creio que é fundamental o amplo debate, com bases nas mais diversas teorias, enlarguecendo os entendimentos e fugindo do extremismo, seguindo a máxima aristotélica que “a virtude está no meio”. A oposição não pode continuar com discursos irresponsáveis, nem a situação tapar os olhos com cabresto. Urge que o país seja visto através de novas lentes, conectadas com as reais demandas do século XXI.

Por isso, concordo com o senador Douglas Cintra: “O Brasil precisa de equilíbrio”. As estruturas estatais devem ser permeadas pela sociedade. Os debates devem ser menos animosos e mais conceituais. A ideia de ‘nação’ precisa ser elevada e construída em nossa pátria. O maniqueísmo deve dar espaço a uma cosmovisão que compreenda a vida com múltiplas cores. As utopias devem ser alimentadas, para que um novo amanhã ressurja no horizonte. Essa aurora não é dádiva de “iluminados”, mas é uma construção de cada um. Façamos nossa parte.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro