10 de junho de 2018 às 13h42min - Por Mário Flávio

A greve dos caminhoneiros parecia ser mais um embate entre governo e grupo de pressão. Mas logo o episódio se desdobrou em uma crise institucional. Essa evolução pode ser compreendida a partir de duas chaves-analíticas: fragilidade governamental e fragmentação dos grupos de interesse.

Associações pressionam governos com a intenção de influenciar a política do setor. Assim agem os chamados grupos de interesse. Os mais organizados costumam ter suas demandas formalizadas por meio de regulação favorável. Não à toa, outro termo utilizado para se referir a eles é grupos de pressão.

Ao mesmo tempo, um governo frágil tende a ser mais propenso a atender aqueles que o pressionam. O governo Temer é um caso exemplar: possui índices de aprovação irrisórios, a melhora da economia beira ao realismo fantástico e, às vésperas das eleições, é praticamente nula a expectativa de poder do presidente alvo de denúncias de corrupção.

Quanto mais coeso um grupo de interesse, maior tende a ser sua capacidade de pressionar. A coesão, por sua vez, está associada à capacidade de comunicação interna. É o que a literatura chama de “custos de informação e de organização”. Os caminhoneiros já se comunicavam via WhatsApp para acertar serviços. Na greve, o app tornou-se ferramenta de ação política.

Por otimizar a troca de informação, o aplicativo poderia ter contribuído para acelerar o processo de negociação. Mas ocorreu o inverso. O que se viu foi assimetria informacional e lideranças do “mundo real” em xeque no “mundo virtual”. Duas características que se reforçam mutuamente e que são próprias da sociedade da qual WhatsApp é fruto podem ajudar a explicar o porquê.

A primeira é a interação horizontalizada. Como qualquer integrante está habilitado a compartilhar conteúdo, os interesses originais do movimento podem se tornar um tanto difusos. A segunda característica é a fragmentação. Os grupos são formados por até 256 integrantes. O limite incentiva a proliferação de ambientes que não necessariamente interagem entre si.

O governo cede, mas a crise persiste, por um motivo simples: a fragmentação influencia na resolutividade, pois a distribuição de benefícios está pulverizada entre diversos subgrupos. Como ninguém se dá por satisfeito, a pressão continua. Já o custo dessa negociação está concentrado: quem paga a conta do impasse é você, contribuinte.

Juliano Domingues é cientista político e professor da Universidade Católica de Pernambuco.


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro