26 de novembro de 2017 às 17h39min - Por Mário Flávio

Negros

Processo social que deu origem à identidade brasileira, a escravidão esteve presente na nossa sociedade por mais de 3 séculos, precisamente 338 anos.  Historicamente, teve início no ano de 1550, e foi oficialmente extinta em 1888, por ato regencial da princesa Isabel. Nesse período, de cada 100 estrangeiros que desembarcaram no país, 86 eram africanos.  

De acordo com o censo do IBGE, 54% da população brasileira se declara preta ou parda. Foi o esforço físico, suor e sangue dos nossos antepassados afro descentes que construíram inúmeros prédios, igrejas, palácios, engenhos e edificações seculares, presentes até hoje nos quatro cantos do Brasil. A produção do açúcar como riqueza nacional, a mineração, a criação de gado, a mão de obra na agricultura e pecuária tem o DNA africano no Brasil.   Cento e vinte anos após a abolição da escravidão, ainda são gigantescas as feridas sociais impressas na paisagem brasileira, na forma de analfabetismo, violência, baixo índice de desenvolvimento humano, acesso à educação e serviços públicos essenciais.

Essa parcela da população são os mais pobres, menos instruídos, mais explorados e com menor qualidade de vida, segundo dados oficiais do próprio governo. A renda média mensal é 53% menor que os brancos, estão entre os 74% mais pobres, tem 2 anos a menos de escolaridade, ocupam menos de um terço das matrículas no ensino superior, tem menor expectativa de vida, e são mais vitimados pela criminalidade, entre outros índices. Em outra pesquisa, a voz do povo brasileiro, de todas as classes e etnias, revela o nível de consciência da população.  

Perguntados se “você acredita que exista no Brasil preconceitos devido à cor da pele”? 67% dos entrevistados responderam que sim, índice que sobe para 76% quando o questionário foi respondido por negros.  A segunda pergunta é complementar ao tema: “você já sofreu preconceito por conta da cor da sua pele”? 73% dos entrevistados responderam que sim, com predominância das pessoas de pele negra. Dos que sofreram preconceitos, 93% não fizeram denúncias formais aos órgãos de direito, outro dado por demais preocupante.  

Quando silenciamos, nos diminuímos frente ao nosso opositor, neste caso, o preconceito.  Essa pesquisa citada foi respondida via internet por 4.000 pessoas.  No Brasil do século XXI, os irmãos afrodescendentes são maioria da população, sociedade e cultura, mas estranhamente são uma minoria na representação política, em razão do modelo partidário que prioriza a força econômica dos seus membros, excluindo e desestimulando da vida política esse setor social de menor poder aquisitivo.  

No final do século XX iniciativas foram muito bem-vindas, apesar que tardias, mas se propõem a oficializar estruturas políticas de ministérios e secretarias de governos estaduais e municipais em defesa da luta pela tão propagada igualdade racial.  128 anos de abolição não foi suficiente para igualar todos os brasileiros, quando temos um passado de três séculos e meio de uma desumana escravidão.  A solução para cicatrizar essa ferida social que envergonha a identidade brasileira?

Eu não tenho, visto que é algo a ser pensado e construído a partir de debates, nas escolas, nas faculdades, nas igrejas, nas religiões de matriz afro, nos gabinetes do Judiciário, no Congresso Nacional, nas Forças Armadas e em todos os cantos deste país ocupado por afrodescendentes, homens e mulheres que trazem no seu DNA uma herança de história, cultura, religiosidade e tantos ingredientes que constroem esse Brasil de Ordem, Progresso e tanta desigualdade social, seara desafiadora para todos, agentes que somos da cidadania nacional.  

Liberdade e Igualdade à nação de Zumbi, Machado de Assis, Pelé, Joaquim Barbosa, Thaís Araújo, Alcione, Cartola, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Daiane dos Santos, etc.

*José Urbano é professor


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro