26 de maio de 2015 às 12h40min - Por Mário Flávio

Ao observamos a vida política nacional em diferenças escalas, surge uma constatação aterradora. Na medida em que o nível de análise saí da esfera nacional e vai descendo, ao chegar no nível local o cenário é desolador, caótico mesmo.
Afinal, se de grosso modo, e com todas as contradições possíveis e existentes, o PT e o PSDB, em nível nacional, representam modelos distintos de organização social e de gestão. Porém, mesmo assim eles realizam de forma incipiente, e com todas as falhas possíveis, um debate sobre o tipo de sociedade que queremos e as opções existentes para o país.
Contudo quando chegamos à política municipal, esse quadro de referências, mesmo que falho, some, desaparece como por encanto. Basta olhar a atual configuração da política caruaruense, que sempre foi polarizada, por vários motivos, menos por razões ideológicas, ou de conteúdo político.
Na política municipal ao invés de modelos e ideias, temos uma política dominada pelo personalismo e pelo culto a figura do líder. E embora muitas dessas lideranças gostem de se intitularem de esquerdas, e reafirmem em campanha seus compromissos com o ideário popular. Chegando até, algumas delas, a se colocarem como adversários ferrenhos da ditadura militar, para justificar o rótulo que se auto atribuem, como o nosso atual Prefeito.
Porém se analisarmos as suas gestões, as políticas e ações implementadas, nas mais diversas áreas, sejam elas sociais ou econômicas, não encontramos grandes diferenças, ou marcas, que caracterizem realmente essas administrações como tendo sido ou sendo de esquerda. Nunca houve, e não há, o compromisso real em tornar a cidade mais justa, e de realmente combater a desigualdade social existente em Caruaru. Principalmente através da organização de serviços essenciais, com o caráter público, gratuito e de qualidade.
Todas elas foram marcadas, pelo aparelhamento e inchaço da máquina, pela negligência sistemática com a educação e a saúde. Pela ênfase em ações midiáticas, e que maquiam o triste quadro de abandono das nossas periferias. Investindo prioritariamente em obras muitas vezes supérfluas, enquanto questões essenciais, vitais são negligenciadas. O discurso inovador, do desenvolvimento, é onipresente em suas bocas, embora nunca se concretize em solo caruaruense. Verdadeiros vendedores de ilusão.
Nossas lideranças sinalizam a esquerda, mas sempre governam a direita, sempre foi assim. Por isso que se entende a irônica afirmativa feito pelo Deputado Tony Gel, ao afirmar em uma entrevista, que ele tinha mais identificação com o social que as ditas forças progressistas caruaruenses.
Muitas dessas lideranças foram parar em partidos de esquerda, não por uma questão de identificação programática ou partidária. Mas sim, porque procuravam uma agremiação que servisse de guarda chuva para os seus projetos eleitorais, que lhe dessem uma legenda para controlar e permitissem atrair o apoio de políticos nacionais as suas campanhas. E se formos olhar o seu DNA, todos eles tem sua origem na direita, e ainda estão lá…
A recente polarização política em Caruaru é fruto direto da engenharia política gestada na ditadura. Durante os anos 50 e 60, a vida política caruaruense era dominado por grupos políticos rivais, liderados por João Lyra Filho e Draylton Nejaim. Duelam em siglas de direita, a UDN e o PSD. O principal partido de esquerda na época, o PTB, nunca elegeu um prefeito em Caruaru, e o partido comunista estava na clandestinidade.
Com o Golpe Militar e a dissolução de todos os partidos políticos, para a criação do bipartidarismo, ARENA e o MDB. As lideranças locais foram obrigadas a repartir as siglas, com Drayton, prefeito na época, assumindo a ARENA, a mais cobiçada na época. Muitas lideranças nacionais do PSD relutaram em ir para o MDB, os militares tiveram que apelar para que os políticos se filiassem ao MDB, para que o mesmo atingisse o mínimo necessário de filiados para a sua criação. Draylton ocupou a ARENA e jogou os seus adversários no MDB.
A ARENA, vira o PDS e depois o PFL, com Draylton sendo substituído por Tony Gel. Já o MDB implode em várias siglas, como PMDB, PSB, PDT e etc.. E nossas lideranças políticas locais migrando para esses siglas, buscando não um a identificação programática, mais uma sigla para chamar de sua. Legendas que dominassem, e pudessem controlar livremente, e lhes desse uma grife de esquerda, uma aparência. Essa situação fica muito parecida com a criação do PSD, após o Estado Novo em 1945, relatado por Sebastião Nery:
Os interventores Benedito Valadares, de Minas; Fernando Costa, de São Paulo; Agamenon Magalhães, de Pernambuco; Amaral Peixoto, do Estado do Rio; o prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek; e o prefeito do Rio, Henrique Dodsworth; começaram a reunir-se no apartamento de Benedito, no Rio, para criarem o partido do governo.
“Qual o nome?
– Partido Democrático.
Benedito, que só era burro para a UDN mineira, propôs:

– Olhem para a Europa. Os tempos são outros. Vamos botar uma pitada de social nisso aí. Vamos chamar o Partido de Social Democrático.

E um pernambucano ilustre, Barbosa Lima Sobrinho, amigo de Agamenon Magalhães, redigiu o primeiro programa do PSD (que nasceu em 17 de julho de 1945) com “uma pitada de social”.

E é assim também em Caruaru, o social só entra na política local como discurso, como pitada, nunca como prática. Por isso talvez seja hora de realmente buscar um governo de esquerda para Caruaru, não apenas na aparência, mas sim no DNA. O problema é onde encontrar…
*Mário Benning, é Mestre em Geografia e Professor do IFPE/Caruaru. Texto publicado no blog Caruaru Vermelho


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro