18 de janeiro de 2016 às 07h32min - Por Mário Flávio

Muito se tem falado sobre nova política. De fato, a crise da representação está instalada no mundo, cujo modelo democrático hegemônico desde o século XX não cumpriu suas promessa de justiça e igualdade. Nas bandas de além-mar, o modelo eleitoral se ergueu, prosperou e faliu.

Nos países periféricos, como o Brasil, sequer saímos da primeira fase. A estrutura democrática ainda pena para se consolidar. Mesmo assim, e talvez por isso mesmo, pode-se constatar falida. De ponta a ponta do país persistem domínios econômicos e familiares típicos de sociedades imperiais, onde a coisa pública se confunde com a privada e a política é apenas exercício de poder de uma minoria impermeável à realidade da maioria.

Nesse quadro, fácil é falar em nova política, ansiada e cantada nos quatro cantos. Difícil é fazê-la. E ela não tem a ver com a idade do corpo, mas das ideias. Por isso, em ano eleitoral, ao mesmo tempo em que se multiplicam as promessas de uma nova política, cabe ampliar a reflexão sobre o que essa ideia realmente é. E sobre o que ela não é. Afinal, se a política se renova ou permanece com os velhos e rejeitados trajes, depende apenas do exercício de consciência de cada cidadão/ã ao fazer escolhas coerentes. Por isso, busco aqui contribuir com formas de identificar o velho, para, com isso, fortalecer a verdadeira luta por uma nova política no mundo, no Brasil e em Caruaru.

1) Não é nova política quando ela só pode ser feita por um líder iluminado: a nova política é coletiva ou não é nova. No lugar de um indivíduo indispensável, entram vários indivíduos que são indispensáveis juntos. No lugar de uma pessoa genial, entram ideias ricas por sua coletividade. Ao retirar a exclusividade de do poder político e compartilhá-lo, permite-se maior controle das decisões, maior qualidade nas ações, fortalece-se o interesse público e restringem-se os interesses privados.

NÃO É NOVA POLÍTICA: se encontrar um político que argumente ter um projeto coletivo mas… só ele fala, só ele dá entrevista, só ele aparece, só ele decide e só ele responde em nome de seu “grupo”, então ele não tem grupo, tem subordinados. Isso não é nova política. Na nova política, há vários líderes, várias pessoas com talentos distintos, mas poderes distribuídos e decisões compartilhadas. A velha política tem medo de novos quadros competentes e busca eliminá-los, porque se sente ameaçada na sua frágil liderança.

É NOVA POLÍTICA: A nova política acredita que cada cidadão/ã é uma liderança política e tem capacidade de influenciar nos rumos da vida pública, da sua forma, do seu jeito, com seu conhecimento. Ela não se sustenta uma grande liderança salvadora, mas em projetos de longo prazo abertos à crítica e à construção democrática. As lideranças existentes buscam sempre trazer mais gente para as decisões, formar novos quadros e admirar sua autonomia. A felicidade da nova política é mais gente capaz de liderar transformações sociais.

2) Não é nova política quando um apoio é vinculado a um benefício individual. A única troca possível na nova política é por compromissos gerais, nunca pessoais. E isso exige mudança de postura do político e do eleitor. Todo benefício individual é uma modalidade de compra de voto. O eleitor pode até usufruir cinco minutos de sua venda, mas terá certeza de ter dado a um corrupto um mandato público de quatro anos. Porque quem oferece vantagem pessoal pra ter voto, também vai querer receber vantagem pessoal quanto tiver mandato. É uma via de mão dupla. E o que ele vai receber é muito mais do que ofereceu e vem da mesma fonte: o nosso dinheiro público.

NÃO É NOVA POLÍTICA: se um candidato oferecer qualquer vantagem que não seja a melhoria da vida social, do funcionamento da política, da cidade e suas políticas públicas, então não é nova política. Dinheiro, cesta básica, tijolo, mas também emprego, promoção de cargo, bolsa de estudo, contratação de empresa, aceleração de processo, instalação de portão, retirada de multa, etc. Qualquer ação do governo cujo beneficiário não seja escolhido de forma pública e transparente, mas sim por escolha pessoal do político, é corrupção. Quando restringimos o acesso a bens públicos àqueles que têm proximidade com políticos, simplesmente excluímos a ampla maioria das pessoas. Todas as vezes em que se acessa um direito através de uma relação pessoal, está-se contribuindo para que o sistema público não funcione e todos viram reféns da velha política, porque dependeremos sempre da boa vontade do político conosco, quando o único requisito para acessar direitos deve ser nossa plena cidadania.

É NOVA POLÍTICA: o que a nova política oferece em troca da confiança do eleitor é política pública, qualificação dos serviços públicos, funcionamento dos órgãos de controle sobre o dinheiro público, melhores leis, transporte, saúde, educação, e abertura para escutar e decidir em diálogo com a sociedade. O governante/parlamentar é apenas um canal de acesso para a entrada da população no espaço de poder. Veja que a troca é muito válida: em vez só alguns receberem um benefício, é toda a cidade que recebe, cada um de acordo com suas necessidades, não com suas amizades.

É isso que busca a nova política: melhorias para toda a sociedade, principalmente os que mais precisam, não apenas para os amigos do rei. Só a nova política pode coibir que as pessoas tenham tanta dificuldade para acessar os serviços públicos, porque eles não estarão ocupados com as indicações dos poderosos, mas sim com as prioridades de atendimento. Só a nova política pode garantir que uma pessoa tenha seus direitos respeitados independente de ser amiga ou não de vereadores, prefeitos, deputados. Um político da nova política oferece uma conduta de respeito à coisa pública e à sociedade; um projeto ideológico, com exposição verdadeira sobre quais interesses defenderá em seu mandato; e prestação de contas permanente ao longo dele.

Há vários outros temas nos quais podemos destrinchar a diferença entre a velha e a nova política. Para não estender o texto, começo com esses dois e convido você a pensar algumas outras que podemos trazer em artigo posterior. Aguardo contribuição por e-mail, porque a o que faz mesmo a nova política é a participação. Se em 2016 mudaremos só os nomes ou de fato faremos das eleições uma mudança de era, depende mais dos eleitores que dos candidatos. Quer que a política mude? Então, mude. A nova política é possível.

*Louise Caroline, caruaruense, 32 anos, é Mestra em Ciência Política e membro do Diretório Nacional do PT. louisecaroline@gmail.com


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro