9 de março de 2016 às 06h59min - Por Mário Flávio

Ao longo dos últimos anos passamos a acompanhar mudanças significativas na leitura da conjuntura político-ideológica em todo mundo. Um fenômeno que nos chama a atenção é uma “aversão” crescente aos partidos políticos, independente do campo ideológico ao qual se vinculam. Tal fato vem sendo reforçado com mudanças sistêmicas e sintomáticas (Tea Party, nos Estados Unidos; Podemos, na Espanha; Syriza, na Grécia), na nomenclatura de segmentos e a evidente tentativa de enfraquecer os tradicionais partidos políticos, na forma como são conhecidos, muitas vezes buscando utilizar de figuras tradicionais da política ou não, como substitutos naturais do ideário do partido político que representa.

No âmbito nacional, um elemento bastante peculiar que surge no contexto político de forma mais enfática nas manifestações de rua em 2013, é a tentativa de se alijar os partidos políticos de eventos, privilegiando-se, por vezes, “Salvadores da Pátria”, independendo sua conotação (matriz) ideológica. O enfraquecimento dos Partidos Políticos em sua formatação tradicional, pode ser um indicativo de mudanças, que poderão ser boas ou ruins e que apenas o tempo poderá nos dizer, mas ao traçarmos um paralelo histórico, visualizando as eleições do Brasil, percebe-se claramente que a população praticamente não associa as siglas aos seus filiados (e vice-versa) muitas vezes votando na pessoa e não observando o conjunto político a que ele/ela se vincula.

Temos uma representação ainda mais latente quando analisamos processos eleitorais em pequenos municípios (muito embora tal fato também se repita em grandes centros urbanos) onde famílias tradicionais e não partidos políticos são os detentores dos votos. Ainda é comum se perguntar em quem você vai votar?, e não em qual partido você votará? Se tal premissa se tornasse cerne da avaliação, talvez tivéssemos, no caso específico do Brasil, um sistema político, eleitoral e partidário fortificado, com delimitações ideológicas e programáticas bem definidas, longe do que temos hoje, uma “sopa de letrinhas” que dizem muito pouco ou quase nada sobre a linha ideológica a qual se vinculam e que externam fragilidades ideológicas ao darem efetividade às coligações que muitas vezes ligam, no mesmo bloco, gregos e troianos.

Nos pequenos rincões do Brasil, vemos claramente esse fenômeno da “fulanização” ser apresentado de forma ampla, remetendo a população a situação análoga aos feudos, onde as famílias se perpetuavam geração após geração e, na forma mais recente (ou nem tanto) o coronelismo, que dava forma a esta possibilidade de o candidato do “Coronel A”, do “Coronel B” ou do “Coronel C” ser o escolhido ou a escolhida. Tais formatações ainda se mantêm muito vivas na história política brasileira, onde famílias políticas tradicionais escolhem os candidatos (familiares) para continuarem se perpetuando nas esferas de poder, relegando candidaturas “não tradicionais” a um plano menor, criando estruturas de poder local ou regionais que nitidamente buscam impedir o aprofundamento da discussão política, mantendo o uso de “grilhões mentais” naquela população e geração após geração, impossibilitando o avanço político na localidade.

Não quero (ou não me proponho agora) fazer uma análise maniqueísta, do bem e do mal, de qual partido representa melhor o segmento A ou B, principalmente ao analisar que neste momento o Brasil vive uma perspectiva delicada, onde muitos tergiversam e não assumem suas convicções ideológicas (conscientes ou não), reforçando direta ou indiretamente a ideia de que precisamos abandonar os partidos políticos tradicionais.

Alguns passos foram dados (por partidos tradicionais) para tentar se desvincular da concepção política partidária que ainda é dominante, mudando seus nomes, abolindo a expressão “Partido”, com a clara intensão de se mostrar em nova face para a sociedade, embora adotem, por vezes, práticas tão antigas que não os desvinculam de seu passado. Outros se configuram, igualmente sem o nome “Partido”, mas numa profusão de identidades ideológicas que mais os assemelhariam a uma colcha de retalhos desconexa, com viés nitidamente eleitoreiro.

Uma reflexão profunda precisa ser feita acerca do tema, pois nos momentos históricos em que indivíduos foram investidos na condição de “Salvadores da Pátria”, os efeitos foram devastadores. A Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini são exemplo clássico disto. Quando partidos políticos foram desprezados no seu papel de condutores dos anseios sociais, nasceram as representações de ódio e totalitarismo mais marcantes como o Nazi-Fascismo. A abolição dos partidos políticos, por si só não caracterizará mudanças efetivas da cultura política, mas certamente poderá nos conduzir a períodos obscuros, com reflexos diretos em conquistas históricas, as quais podem ser colocadas em risco pela falta de percepção de uma realidade que se avizinha.

*Antônio Carvalho – Advogado / CEO de Antônio Carvalho Advocacia e Consultoria


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Mário Flávio

Jornalista & Blogueiro